Meu querido mês de Agosto,
Escrevo-te para pedir que não termines, que te estiques o mais possível e me obrigues a parar.
Terias, porventura, a bondade de me receber em dias quentes, eu não me importo de vestir um casaco ao fim da tarde se preferires um pouco de vento.
O calor também cansa.
Os dias mornos do não fazer nada enchem-se de livros, uns a seguir aos outros que me escapa a capacidade de leituras simultâneas.
Diz-se que ninguém lê, que está tudo nos ecrãs, pode ser que sim, eu leio até ao final da tarde na paz do campo e, numa prece, faço parecer que um minuto são cinco, que uma hora são duas, que a quinzena que nos resta se desdobra para lá do possível.
Gosto que o mês de Agosto me obrigue a ser outra pessoa, menos veloz nas coisas da vida, menos ativa.
Gosto que me empurre para certas músicas.
Passei tantos anos a desconfiar da preguiça que nunca me ocorreu que ela pudesse ser uma forma de inteligência.
Tu, mês de Agosto, lembras-me isso todos os anos.
Há dias em que não fazer é exatamente o que é preciso fazer.
A preguiça que nunca sinto instala-se para fazer as vezes da pressa em que sempre ando.
E eu abraço a preguiça, primeiro com estranheza, depois quase de maneira amorosa.
No grande compêndio do autocuidado que o bom senso fornece, aprendemos a teoria, não é verdade? A prática é outra coisa.
Certas coisas na nossa vida são como aquele gesto inútil que nos divide para depois nos derrotar.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.