O Irã desnudou o rei
A outrora magnífica, imponente e imperial águia americana, cujas asas cobriam todos os continentes para impor seus insaciáveis interesses, hoje se vê perdendo suas penas, e suas garras luzem desafiadas. A Europa, que procurava sua união e segurança debaixo daquelas asas, observa desamparada a inimaginável fuga da águia para se recolher no seu desarrumado ninho. A truta, que imaginava pegar facilmente no Golfo Pérsico, resultou um tubarão do qual não consegue fugir sem perder mais algumas penas. Nem a vergonhosa revoada no Afeganistão, em agosto de 2021, permitia predizer um desenlace tão fugaz e desastroso. Mas o que poucos imaginavam ver tão cedo começou bem antes.
Findada a Guerra Fria e surdos às reiteradas mensagens de Putin, os estrategistas ocidentais continuaram a criar a imagem de uma Rússia ameaçadora (não obstante entre 1992 e 1998 tenha sofrido uma retração econômica do 50% do seu PIB) que devia ser detida na sua voracidade territorial. Assim, de uma imagem criada de ameaça, o ocidente ideológico foi se constituindo numa verdadeira ameaça para Rússia, que foi alterando sua doutrina de emprego nuclear a cada onda ofensiva da OTAN para o leste.
Nem a enérgica resposta de Putin na Ossétia do Sul em 2008 foi suficiente para acordar a Europa do pesadelo embrutecedor que a levava resignada ao precipício nuclear. Obstinadamente, desde 2009 começaram a erodir politicamente a Ucrânia. Sob a batuta de Victoria Nuland, acordaram o nazismo ucraniano reivindicando “heróis” das SS como Stepan Bandera, treinaram, financiaram e armaram os grupos de choque que ensanguentariam a Praça Maidan em 2014, no golpe que derrubou o governo democraticamente eleito de Viktor Yanukovych e instalou o governo dócil ao império americano que ordenou a guerra civil contra o Donbass culturalmente russo.
Depois de 15 mil civis assassinados pelas forças de Kiev e de declarações imprudentes de Zelensky solicitando o ingresso na OTAN e renunciando ao tratado de Budapeste, no qual Ucrânia abdicava de possuir armamento nuclear no seu território, em janeiro de 2022 a Duma em Moscou reconheceu a independência das províncias do Donbass (contra a posição de Putin, que defendia apenas sua autonomia). Finalmente, e não sem antes fazer reiteradas advertências e claros movimentos de tropa na fronteira, Putin dá a ordem de iniciar a chamada “Operação Militar Especial” com o ingresso de tropas russas até o coração da Ucrânia, em uma estratégia de guerra relâmpago.
A velocidade e contundência do ataque russo levou Zelensky a negociar a paz em Belarus em março. Tratava-se de uma negociação que apenas reiterava o que tinha sido negociado em 2015 no Acordo de Minsk 2: integridade territorial da Ucrânia, independência das províncias de Donbass e o não-ingresso na OTAN. Essa, consideramos, foi a primeira negativa bélica à expansão territorial da OTAN e aos interesses estratégicos da Águia Imperial e sua pretora da OTAN.
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