Moção de censura política
Com o final de agosto e o regresso à “normalidade”, volta também o espetáculo da vida política nacional.
Desta feita, perante o silêncio ensurdecedor das oposições tradicionais (ou a escassez de tempo de antena) e o trabalho de bastidores da maioria que governa (ou pelo menos para aí remetido), o tema quente desta rentrée é uma moção de censura, cujo desfecho é conhecido antes de ser oficializado: o chumbo.
O líder do Chega sabe-o perfeitamente.
Contudo, na política do espetáculo, o imperativo categórico é aparecer.
Sob a máxima do "falem bem ou falem mal, mas falem", esta ação alcança o seu mérito prático para o proponente.
Embora estejamos perante uma clara instrumentalização dos mecanismos parlamentares para dominar a agenda mediática, a verdade é que o jogo de luzes, sombras e fumos resultou – desde a resposta “musculada” do ministro da Administração Interna (MAI) à entrada em cena do Presidente da República.
André Ventura volta a raptar a agenda pública.
O descontrolo perante os microfones em busca de um soundbite fácil expôs antecipadamente as posições de quem poderia viabilizar a iniciativa.
O resultado prático é perverso: discute-se obsessivamente o Chega, camuflando quer os feitos tangíveis do Governo, quer a gritante ausência de uma alternativa programática ou do palco para a expor, por parte da oposição clássica, que parece remetida a um papel de espectadora passiva.
Nesta coreografia, parte da comunicação social assume uma cumplicidade involuntária, alimentando o ruído em troca de audiências fáceis.
Há uma profunda ironia nisto.
A atualidade deixa-se paralisar por uma "crise artificial".
Um caso grave que não devemos esquecer – o esquecimento de um ministro com escola na PJ que mantém uma serenidade aparente sob pressão – transformou-se no grande folhetim nacional, servindo apenas de palco ao proponente.
Ainda assim, o tiro mediático traz um revés estratégico.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.