Opinião - O bolso dividido: como a contabilidade mental alimenta o endividamento das famílias
O Brasil acaba de renovar um recorde que ninguém comemora.
Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), 82% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida em atraso, o maior percentual da série histórica e o sexto mês consecutivo de avanço do indicador.
O maior vilão para este resultado continua sendo o cartão de crédito, que responde pelo endividamento de mais de 85% das famílias devedoras, justamente a modalidade que carrega a taxa de juros mais elevada do mercado, superando 428% ao ano no crédito rotativo.
É tentador atribuir esse quadro apenas à renda insuficiente ou à Selic elevada, mesmo após o corte de agosto para 14% ao ano, as taxas ao consumidor final reagem lentamente a essa queda.
Mas há um fator menos discutido e igualmente corrosivo: a forma como nosso cérebro organiza o dinheiro.
Refiro-me à contabilidade mental, heurística descrita por Richard Thaler, Prêmio Nobel de Economia em 2017.
O que é a contabilidade mental Dinheiro é fungível: um real é um real, venha do salário, do décimo terceiro ou da restituição do imposto de renda.
Nosso cérebro, porém, não o trata assim.
Criamos “caixinhas” mentais, como o dinheiro da viagem, a poupança das crianças, a reserva do carro e atribuímos a umas regras próprias, como se fossem moedas diferentes.
Essa segmentação tem utilidade organizacional, mas gera decisões financeiramente irracionais quando as caixinhas deixam de conversar entre si.
O exemplo mais destrutivo é universal: a família que mantém R$ 20 mil na poupança, rendendo pouco mais de 6% ao ano, enquanto carrega R$ 10 mil no rotativo do cartão a mais de 400% ao ano.
Na contabilidade mental, a poupança é “intocável”, e é considerado o fundo de emergência, o sonho da casa.
A dívida, por sua vez, vive em outra caixinha, tratada como um problema separado.
O resultado aritmético é brutal: essa família paga, todos os meses, uma fortuna em juros para preservar a ilusão de que está poupando.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em valorinveste.globo.com — o conteúdo pertence a Valor Investe.