O luto como aprendizado coletivo
Tenho procurado discutir a morte em diferentes escalas.
Vimos que ela não é simplesmente o oposto da vida, pois está incorporada ao próprio funcionamento dos sistemas vivos.
Átomos e moléculas fluem através dos seres, enquanto vivos, e indivíduos desaparecem, levando consigo parte da informação que carregavam, mas deixando interconexões (também informação) que permanecem.
Aos poucos, a morte pode ser vista não como um ponto final, mas como parte de um processo mais amplo de transformação.
Porém, há um aspecto importante desse processo, principalmente para os seres humanos, sobre o qual ainda não falei: o que acontece com aqueles que permanecem depois que algo ou alguém desaparece? É aí que entra o luto.
Costumamos associá-lo à morte de uma pessoa, mas o conceito pode ser um pouco mais amplo.
Há luto quando termina um relacionamento, quando uma pessoa se aposenta depois de décadas exercendo uma profissão, quando se perde uma condição física ou quando um projeto em torno do qual organizávamos o futuro deixa de ser viável.
Em todos esses casos, há, evidentemente, uma perda, mas talvez não seja apenas o objeto perdido que importe.
Quando algo desaparece, some também uma parte da organização que construímos em torno dele.
Uma organização da qual fazemos parte.
O desaparecimento de um nó da nossa rede de relações muda.
As expectativas, os hábitos e as maneiras de imaginar o futuro também mudam.
Ao processo de luto (negação, revolta, negociação, tristeza e aceitação) talvez seja possível acrescentar, ao raciocínio que proponho aqui, um acréscimo: a reinvenção.
Passar por processos semelhantes é, na realidade, algo corriqueiro.
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