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Ciência

Gravidez e calor extremo: os riscos gestacionais atrelados à crise climática

Por Redação 5News · · com informações de Galileu
Gravidez e calor extremo: os riscos gestacionais atrelados à crise climática

Gravidez e calor extremo: os riscos gestacionais atrelados à crise climática

Líderes mundiais de clima estão levantando um alerta silencioso que afeta milhões de mulheres ao redor do planeta: o aumento das temperaturas representa uma ameaça direta à saúde reprodutiva e ao desenvolvimento dos bebês. A constatação não vem de uma entidade qualquer. É o responsável máximo pelo órgão de ação climática das Nações Unidas quem vem soando o alarme com dados científicos preocupantes, especialmente quando o planeta se prepara para discutir a próxima grande conferência sobre mudanças climáticas.

A alerta internacional sobre clima e gestação

Poucos dias antes da realização da COP31, conferência prevista para novembro onde os países negoceiam ações contra aquecimento global, o dirigente da agência climática da ONU reforçou a importância de colocar na pauta de discussão os perigos que o calor intenso representa para mulheres grávidas e recém-nascidos. De acordo com comunicado oficial, ele assinalou que quando os termômetros atingem níveis perigosos, o risco para gestantes aumenta proporcionalmente. O problema manifesta-se de maneiras variadas e preocupantes: partos antecipados, morte fetal, crianças nascidas abaixo do peso esperado e complicações para a saúde materna.

Os números que revelam uma realidade crescente

A instituição Wellcome financiou uma pesquisa com profissionais especializados em saúde materna em diversos continentes para melhor compreender a dimensão do problema. Os resultados impressionam. Entre os profissionais consultados, mais de sete em cada dez relataram que, nos últimos cinco anos, aumentou significativamente o número de casos em que o calor extremo esteve envolvido em complicações gestacionais e de saúde do recém-nascido. Além disso, uma proporção ainda maior desses especialistas manifestou preocupação intensa sobre a ausência de políticas e ações que mitigassem os riscos relacionados ao calor para mães, fetos e bebês nos primeiros dias de vida.

A pesquisa revelou também que praticamente a totalidade dos profissionais entrevistados já se deparou, em sua prática clínica, com pelo menos um caso de gestante ou criança pequena cujo estado de saúde foi prejudicado pelo calor extremo. Essa realidade está ocorrendo em diferentes regiões do planeta, apontando para um problema de escala global.

Desigualdade e injustiça climática

Um dos pontos mais relevantes destacados pelo líder climático da ONU diz respeito à distribuição desigual do risco. Nem todas as gestantes enfrentam as mesmas ameaças. Aquelas que trabalham em ambientes abertos, sem proteção, estão particularmente vulneráveis. O mesmo vale para mulheres que vivem em domicílios inadequados, com pouca ou nenhuma possibilidade de arrefecimento. Gestantes que precisam percorrer grandes distâncias para acessar serviços médicos, assim como aquelas atendidas em estruturas de saúde desprovidas de água potável, energia elétrica ou ventilação, enfrentam riscos amplificados. Esses grupos, alertou o dirigente da ONU, não podem ser protegidos apenas por meio de recomendações genéricas.

A situação traz à tona uma questão estrutural: a segurança durante a gestação e o parto já está historicamente vinculada à localização geográfica onde a mulher vive, à sua renda e à facilidade de acesso a cuidados de saúde adequados. O calor crescente, nesse contexto, funciona como um amplificador de desigualdades preexistentes. Sem intervenções concretas, essa injustiça tenderá a se aprofundar.

Prioridades de ação identificadas

Reconhecendo a urgência, foram delineadas três frentes de ação prioritárias. A primeira envolve integrar o cuidado durante a gravidez e os primeiros dias do bebê aos planos de adaptação climática e de saúde pública voltados para calor extremo. Muitas cidades e países ainda não consideram esses aspectos ao elaborar suas políticas climáticas.

A segunda prioridade centra-se em transformar o conhecimento científico em proteção efetiva. Isso significa estabelecer orientações claras para profissionais de saúde, promover capacitação adequada, criar sistemas de alerta quando temperaturas atingem níveis perigosos e reformar as instalações de saúde para que ofereçam ambientes seguros e adequadamente refrigerados.

A terceira envolve expandir e qualificar o monitoramento de dados. Conhecer precisamente onde os riscos estão aumentando e quais medidas realmente funcionam é fundamental para direcionar recursos e políticas de forma eficiente.

Há uma frase icônica nesse debate: aquilo que não é nomeado em um plano de governo frequentemente não recebe financiamento, não é acompanhado através de indicadores e, portanto, não é efetivamente protegido. Da mesma forma, danos que não entram nas estatísticas oficiais tendem a ser negligenciados pelas autoridades.

Contexto: entendendo o cenário

A conferência COP31 é parte de uma série de negociações internacionais sobre clima que começou com a COP1 em 1995. Todos os anos, países se reúnem para discutir metas de redução de emissões, adaptação aos impactos climáticos já inevitáveis e financiamento para que nações em desenvolvimento possam fazer a transição energética. A UNFCCC, a agência da ONU responsável por coordenar essas discussões, tem aumentado progressivamente a atenção à saúde como um tema climático crítico.

Termos como "calor extremo" referem-se não apenas a dias ocasionalmente quentes, mas a períodos prolongados de temperaturas anormalmente elevadas, frequência e intensidade crescentes desses períodos, e fenômenos como ondas de calor. Esses eventos são cada vez mais documentados pela comunidade científica como decorrência do aquecimento global causado por emissões de gases de efeito estufa.

A saúde materna, por sua vez, é um indicador que reflete as condições socioeconômicas, infraestruturais e ambientais de uma região. Quando uma mulher enfrenta dificuldades para manter-se hidratada durante uma onda de calor, ou quando a unidade de saúde onde dará à luz não consegue manter temperatura adequada, os riscos para mãe e bebê aumentam dramaticamente.

Impactos no desenvolvimento cerebral e infância

O problema não se encerra com o nascimento. Uma investigação divulgada em julho por cientistas do instituto de pesquisa em saúde global sediado em Barcelona trouxe descobertas alarmantes sobre os efeitos prolongados. Os pesquisadores analisaram informações de milhares de participantes e constataram que quando bebês são expostos ao calor intenso durante a gravidez de suas mães e nos primeiros meses de vida, o desenvolvimento cerebral pode ocorrer de forma mais lenta do que o esperado. Especificamente, os pesquisadores identificaram alterações em uma estrutura cerebral crucial chamada tálamo.

Conforme a pesquisa catalã, o período mais sensível a esses efeitos vai desde o momento da concepção até aproximadamente cinco meses após o nascimento da criança. Esse é um intervalo crítico em que o sistema nervoso central está em formação acelerada e, portanto, particularmente vulnerável a fatores ambientais adversos.

Simultaneamente, pesquisa desenvolvida no Brasil identificou uma associação entre aumento de temperaturas e elevação dos casos de desnutrição em crianças pequenas. O mecanismo exato que liga calor à má nutrição infantil envolve fatores como redução do apetite em temperaturas altas, dificuldades na preservação adequada de alimentos em ambientes quentes e competição entre recursos destinados à refrigeração e aqueles destinados à alimentação em famílias de baixa renda.

O que acompanhar

As próximas semanas trarão discussões importantes na COP31 que ocorrerá em novembro. Será fundamental acompanhar se saúde materna e infantil ganharão espaço efetivo nas negociações climáticas e se compromissos financeiros serão assumidos para proteger as gestantes mais vulneráveis. Também será relevante observar se países começarão a incluir, em seus planos de adaptação climática, medidas específicas para hospitals, clínicas e centros de saúde voltados a manutenção de temperaturas seguras durante períodos de calor extremo.

No Brasil especificamente, será importante monitorar se as descobertas sobre desnutrição infantil e calor extremo estimularão novas políticas de proteção social e aumento de acesso a alimentos adequados durante períodos de crise climática. Igualmente relevante será acompanhar se sociedades científicas voltadas à saúde materna e pediatria começarão a incorporar, nas suas diretrizes, recomendações específicas sobre prevenção e manejo de complicações relacionadas a temperaturas extremas durante a gravidez.

Principais pontos:

• Pesquisa com profissionais de saúde materna em cinco continentes revelou que 73% relataram aumento de casos de complicações associadas ao calor nos últimos cinco anos, e 81% expressaram preocupação com falta de ações de proteção.

• Calor extremo durante a gravidez está ligado a partos prematuros, natimortalidade, baixo peso ao nascer e complicações para a saúde materna, afetando desproporcionalmente gestantes que trabalham ao ar livre, vivem em moradias precárias ou têm difícil acesso a serviços de saúde.

• Estudo de pesquisadores em Barcelona mostrou que exposição ao calor durante gravidez e primeiros cinco meses de vida pode retardar o desenvolvimento cerebral e afetar o tálamo, enquanto pesquisa brasileira associou aumento de temperatura com elevação de desnutrição infantil.

• A liderança da ONU defende três prioridades: integrar saúde materna em planos climáticos, transformar evidências científicas em proteção efetiva e melhorar coleta de dados para identificar riscos crescentes e intervenções que funcionam.

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Matéria produzida pela Redação 5News com apoio de inteligência artificial a partir da apuração de Galileu — os fatos do episódio vêm da matéria original; o contexto usa informação pública consolidada. Veja nossa política editorial. A matéria completa, com todo o contexto, está em revistagalileu.globo.com — o conteúdo pertence a Galileu.

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