A real sobre o direito da primeira noite, que permitia aos senhores feudais desvirginar as esposas dos súditos
O escritor e historiador francês Voltaire tinha duas características bem marcantes que transbordavam para suas obras: odiava o cristianismo e adorava um melodrama.
Em 1762, ele escreveu uma peça chamada Le Droit du seigneur ou L’Écueil du sage ( O Direito do senhor ou A armadilha do sábio ), uma comédia em cinco atos que satirizava e criticava um suposto costume medieval: o direito feudal de um senhor ter relações sexuais com a noiva de um camponês ou servo na noite de núpcias.
Essa polêmica prática era muito discutida na Europa desde o século 15, apontada como algo que era hábito no passado.
Em latim, costumava ser chamada de jus primae noctis (“direito da primeira noite”).
O tema ganhou projeção e verniz de autenticidade em 1527, quando o historiador escocês Hector Boece registrou em livro que o jus primae noctis era lei na Escócia até ser abolido pelo rei Malcolm III.
A história foi repetida por outros autores escoceses nos séculos 16 e 17, inclusive John Lesley, George Buchanan e Habbakuk Bisset, além de aparecer em obras jurídicas.
Foi nessa época também que começou a aparecer com frequência em peças de teatro.
Voltaire também incluiu o conceito em seu Dictionnaire philosophique , de 1746, e suas abordagens foram um ponto de virada : elas popularizaram o “direito da primeira noite” de tal forma que ele deixou de ser apenas uma suposta curiosidade histórica e passou a ser um instrumento para satirizar o poder aristocrático.
Continua após a publicidade No século 19, a Revolução Francesa, em vez de enfraquecer o mito, ajudou a popularizá-lo: o direito da primeira noite era tratado como fato e como evidência dos costumes ultrapassados e primitivos do feudalismo.
Mas foi nessa época também que os historiadores começaram a abordar o assunto de forma crítica e observar algo que vinha sendo ignorado: não havia evidências concretas de que esse direito realmente tivesse existido.
Quem inventou a escrita? Continua após a publicidade Sexo, poder e mentiras O direito da primeira noite é, em um contexto amplo, uma repetição de um tema recorrente: a ideia de que poder político e poder sexual estão relacionados.
O historiador Jörg Wettlaufer, que escreveu um artigo científico a respeito , afirma: “Várias culturas não europeias possuem relatos de um costume semelhante relacionado à primeira relação sexual de uma jovem: a defloração ritual realizada por chefes, sacerdotes ou estranhos”.
Continua após a publicidade Wettlaufer menciona um exemplo milenar: a Epopeia de Gilgamesh, da antiga Mesopotâmia, por volta de 1.900 a.C.
Nesse texto, o deus Gilgamesh é apresentado como alguém que tinha o privilégio de deitar-se primeiro com as noivas de Uruk, uma das primeiras grandes cidades da História.
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