Lição de música ou a arte de criar o futuro
Quatro séculos separam-me dela e nunca terei oportunidade de saber quão duro era o afã diário duma menina órfã que passou uma vida inteira no Ospedale della Pietà , em Veneza.
Com a orientação certa, de Antonio Vivaldi, e com todo o mérito que transportou dentro de si, aquela menina inspiradora e inspirada tornou-se professora de violino, compositora e uma violinista que atraiu pessoas de todo o mundo até àquela cidade italiana vagamente submersa.
Anna Maria dal Violin ou Anna Maria della Pietà nasceu provavelmente em 1696, nunca teve um nome de família, porque nunca conheceu a família biológica, e viveu toda a vida no orfanato, mas foi livre na música que criou e nas violinistas que formou.
Vivaldi é conhecido em todo o lado pelo virtuosismo das composições, e Ana Maria inspirou o compositor barroco em muitos momentos, como no Concerto per Anna Maria para violino (RV229).
Anna Maria especializou-se em violino, mas ainda orbitou o universo de vários instrumentos, como o cravo, o oboé ou o bandolim, que lhe valeram uma vida de apresentações musicais durante mais de 60 anos, até morrer com febre, em Veneza, a 10 de agosto de 1782.
Chiara della Pietà ou Santa della Pietà celebrizaram-se igualmente como violinistas, cantoras e compositoras, e têm em comum com Anna Maria o facto de terem passado a infância no orfanato que lhes deu o nome.
Além disso, tornaram-se músicas internacionalmente reconhecidas, tendo sido ambas alunas de Anna Maria.
Não cabe aqui o mundo provável de ligações entre alunas e professoras que surgiram com Anna Maria, mas o legado está de certeza entre nós.
Ainda assim, esta história não é só de Anna Maria, é de todas as mulheres que têm singrado num mundo distorcido por homens, que acharam que tudo lhes pertenciam, e continuam a tentar tirar-lhes direitos.
Isto é sobre música, mas podia ser sobre qualquer outra coisa, desde uma possível mulher a liderar os Estados Unidos ou uma mulher Presidente da República em Portugal, que, em ambos os casos, nunca aconteceu.
Ou o direito a interromper uma gravidez.
O direito a ser promove tudo aquilo que uma pessoa efetivamente é, e dizer isto parece um pleonasmo, mas não é.
Há muita gente que não é o que conseguiria ser, seja porque não tem uma casa ou porque o elevador social é uma mentira e o mérito não é valorizado.
Recentemente, comecei a dar aulas numa escola inserida num Território Educativo de Intervenção Prioritária, que é uma forma pomposa de dizer que é uma escola difícil, com crianças que não nasceram num conto de fadas.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.