Iene ainda é o rei do ‘carry trade’? Juros maiores e intervenção cambial no Japão fazem investidores buscarem alternativas
Por décadas, o iene foi uma das principais moedas de funding no mercado internacional: investidores tomavam dinheiro no Japão com juros próximos a zero e aplicavam os recursos em outros mercados em busca de retornos maiores.
Mas, nos últimos meses, essa operação começou a ser colocada à prova.
Com os juros japoneses no maior nível desde 1995 e Tóquio recorrendo a intervenções no câmbio para sustentar a moeda, o custo — e o risco — de financiar operações de carry trade em iene aumentaram.
Diante desse cenário, o iene pode perder espaço como moeda de funding ? Na avaliação de especialistas ouvidos pelo Money Times , a moeda japonesa continua sendo uma das principais opções para esse tipo de operação, mas enfrenta riscos que podem estimular uma diversificação para outras moedas.
Iene vai perder o posto? Na avaliação de Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez , isso depende principalmente da evolução do diferencial de juros entre Japão e os demais mercados.
“Você tem uma discussão no mundo inteiro de recalibração da política monetária e de um novo posicionamento de taxa de juros globais”, afirma, considerando que a pressão inflacionária provocada pela escalada nos preços do petróleo com o conflito entre EUA e Irã levou os bancos centrais a reprecificarem para cima as suas taxas de juros neutras.
No Japão, os juros nominais estão em 1%, maior nível em 31 anos , e há expectativa de que o Banco Central do país (BoJ, na sigla em inglês) eleve a taxa em 25 pontos-base, para 1,25% em setembro.
Mas também há a precificação de uma alta de mesma magnitude nos juros dos Estados Unidos , que estão na faixa de 3,50% a 3,75%, na próxima reunião de política monetária do Federal Reserve (BC norte-americano).
Isso, na visão de Tavares, reduz o impacto relativo de uma eventual alta dos juros japoneses sobre o carry trade .
“Está todo mundo na mesma página, então o efeito de carry deve se manter neutro”, afirma.
A mesma cautela é compartilhada por Tomás Urani, head de estratégia macro do Santander .
“Se as intervenções [no câmbio pelo Japão] continuarem, podemos ver uma mudança de cenário para o iene, mas o que houve até agora não parece suficiente para mudar esse cenário”, avalia.
Segundo Urani, “a tendência segue sendo de depreciação da moeda japonesa”, apesar das intervenções recentes.
O dólar opera no nível de 160 ienes (USD/JPY).
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