Regina e Gabriela Duarte: a lavação de roupa suja como documento histórico
Doutor em história, é autor de 'Cowboys do Asfalto: Música Sertaneja e Modernização Brasileira' e 'Simonal: Quem Não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga'
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O vídeo da entrevista com Regina e Gabriela Duarte , feita pelo jornalista Matheus Rocha, desta Folha , é uma pérola do nosso tempo. Se você ainda não viu, veja e delicie-se. Tente chegar ao final, se conseguir.
Mãe e filha deixam claro que se amam. Mas sobram farpas e olhares tortos a cada fala uma da outra. É maravilhoso! Especialmente porque é muito comum. Quem não viveu ou vive algo semelhante em casa?
Quem não tem uma mãe como Regina? Uma senhora que não consegue evitar uma polêmica inútil . Que posta nas redes sociais o que vem à sua cabeça, sem dimensionar o quanto a internet, embora pareça a praça pública de antigamente, é muito mais julgadora e cruel.
Quem não tem uma filha como Gabriela? Que olha torto e se coloca em pânico diante da possibilidade, até remota, de cancelamento? Que tem a certeza de que a sua geração é superior à de seus pais.
Sou historiador, preocupo-me com os documentos históricos. Se tivesse que mostrar um vídeo de no máximo 30 minutos sobre o nosso tempo para alguém que não viveu entre nós estes últimos anos, esta entrevista estaria entre os primeiros a serem escolhidos.
Alguns terão dificuldade de assistir até o final. Talvez porque estejamos todos lá, naquelas miudezas, naqueles olhares, naquele ranço de parte a parte. Quando algo cala fundo, torna-se impossível não se reconhecer.
Uma forma de resolver a identificação involuntária é esculhambar um dos lados. É fácil reclamar do bolsonarismo de Regina, que nada parece ter mudado desde que foi secretária de Cultura do ex-presidente Jair Bolsonaro . E, para os conservadores, nada mais fácil que discordar do sutil desrespeito de Gabriela.
O vídeo é magnífico pela atuação de ambas. Não como atrizes profissionais, mas como atrizes dos personagens que escolhemos para performar na vida. Gabriela e Regina estão encenando. Não no sentido da ficção, mas encenando personagens de mãe e filha, tendo que lidar com os personagens que elas mesmas criaram em outras "temporadas". Talvez até inconscientemente.
É preciso louvar a coragem de Regina e Gabriela. Quem se exporia a tanto?
Imagina se tivéssemos lavação de roupa suja desse nível entre outros grandes atores ou músicos e seus filhos? Bom, em relação aos músicos, não é preciso imaginar. Estreou nesta semana o documentário "Nem Tudo É Paz e Amor" .
Dirigido por Betão Aguiar, o filme reúne relatos de filhos de ícones da contracultura brasileira dos anos 1970.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www1.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha · Ilustrada.