Diante de uma epidemia de diagnósticos, psicóloga defende distinguir sofrimento de transtorno mental
De perto ninguém é normal e de longe todo mundo tem um diagnóstico psiquiátrico.
Esse parecer ser o espírito do nosso tempo, um tempo em que siglas, nomes médicos e códigos de doença pularam os muros dos consultórios e frequentam o boca a boca real e virtual.
A ponto de se concluir que vivemos uma epidemia de distúrbios mentais : TDAH, ludopatia, transtorno borderline, TOD… A lista é longa e passível de atualização.
Mas qual é a fronteira entre a norma e o desvio, ou entre a saúde e a doença? Quem define o que é normal e o que é patológico? Quando termina a tristeza e começa a depressão ? Onde acaba a agitação infantil e desponta a hiperatividade com déficit de atenção ? Será que, na ânsia por laudos objetivos e precisos, a psiquiatria não continua escorregando num terreno sinuoso de subjetividade e diversidade? Sim, são perguntas complexas que pedem discussões e respostas também complexas.
Porque, no fundo, talvez o problema não esteja (só) no indivíduo rotulado com o problema A, B ou C.
Talvez esteja na sociedade e no sistema que o rotula assim ou assado.
Esse é um dos diagnósticos do momento que atravessamos esboçado pela psicóloga Flávia Albuquerque .
Munida de aparato crítico, literatura multidisciplinar e argumentos afiados, a pesquisadora e mestre em educação que se projetou com um canal nas redes sociais – são quase 250 000 seguidores só no Instagram – cutuca feridas sociais e paradigmas médicos no livro Despatologiza – A Vida que Não Cabe no Diagnóstico Psiquiátrico , que acaba de sair pela Editora Rocco.
Continua após a publicidade Despatologiza, de Flávia Albuquerque, Editora Rocco, 192 páginas Capa: Rocco/Reprodução A autora, um dos destaques da Bienal do Livro de São Paulo deste ano, problematiza, com conhecimento de causa, fenômenos como a medicalização e a medicamentalização da vida, nunca perdendo a sensibilidade de reconhecer que, por trás de uma definição de manual ou um CID, há alguém em sofrimento ou desconexão com o mundo à sua volta.
Não dá para debater saúde mental no Brasil de hoje sem passar pelas páginas de Despatologiza .
Com a palavra, Flávia Albuquerque.
Continua após a publicidade TDAH, TOD, ludopatia… Que transtorno mental melhor simbolizaria esta era de patologização da vida apontada em seu livro? Se olharmos para a história da psiquiatria, percebemos que cada período produz suas próprias respostas patologizantes e que a gramática diagnóstica se reestrutura de tempos em tempos, sobretudo a cada nova edição do DSM [o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais criado e atualizado pela Associação Americana de Psiquiatria] .
As condições não surgem nem desaparecem de uma época para outra; o que se altera é quais delas a cultura decide iluminar a cada momento.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em veja.abril.com.br — o conteúdo pertence a Veja.