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Humanizar não é deixar de exigir

Observador ·
Humanizar não é deixar de exigir

Há uma transformação silenciosa em curso na forma como olhamos para o trabalho. E, em grande medida, ainda bem.

Durante demasiado tempo, confundimos liderança com autoridade, presença com produtividade e obediência com compromisso. Construímos organizações onde muitas vezes se valorizava mais quem chegava primeiro e saía mais tarde do que quem verdadeiramente acrescentava valor. A humanização das empresas veio corrigir parte desse desequilíbrio.

Mas, como tantas vezes acontece, corremos agora o risco de transformar uma correção necessária num novo desequilíbrio.

Começámos a falar, e bem, de felicidade no trabalho, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, saúde organizacional, propósito, flexibilidade e realização. O problema começa quando deixamos de conseguir falar, com a mesma naturalidade, de exigência, produtividade, mérito, avaliação, responsabilidade e resultados.

É uma comunidade de pessoas que decide trabalhar em conjunto para atingir determinados objetivos. Deve respeitar quem nela trabalha, proporcionar condições dignas, reconhecer o mérito, permitir a realização profissional e compreender que cada pessoa tem uma vida para além do emprego. Mas tem também de produzir, competir, vender, inovar e gerar resultados.

Porque são esses resultados que pagam salários, permitem aumentá-los, financiam melhores condições de trabalho, suportam investimento e garantem empregos no futuro.

Esquecermo-nos disto é talvez uma das formas mais perigosas de paternalismo empresarial.

Não fazemos nenhum favor às pessoas quando lhes retiramos referências objetivas sobre aquilo que delas esperamos. Não protegemos ninguém quando evitamos avaliar desempenho porque a avaliação pode ser desconfortável. E não construímos melhores organizações quando confundimos empatia com ausência de responsabilização.

Uma cultura verdadeiramente humana é aquela onde as regras são claras, os objetivos são conhecidos, o mérito é reconhecido e os problemas são discutidos frontalmente. Onde alguém pode falhar sem ser humilhado, mas onde falhar repetidamente também tem consequências. Onde existe espaço para aprender, mas também responsabilidade para evoluir.

Esta discussão torna-se ainda mais importante com a inteligência artificial.

Estamos perante uma transformação tecnológica que poderá alterar profundamente a produtividade das empresas e a própria natureza de muitas funções. Algumas tarefas desaparecerão, outras serão automatizadas e muitas profissões serão profundamente transformadas.

Neste contexto, a resposta não pode ser proteger artificialmente cada tarefa que hoje existe. Tem de ser preparar as pessoas para aquilo que amanhã será necessário fazer.

Isso exige formação, investimento e liderança. Mas exige igualmente disponibilidade individual para aprender, mudar e assumir responsabilidade pela própria evolução profissional.

É talvez aqui que alguma narrativa contemporânea sobre o trabalho se torna demasiado confortável. Fala abundantemente sobre aquilo que as organizações devem proporcionar às pessoas e muito menos sobre aquilo que as pessoas devem entregar às organizações.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.

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