O Estado deve financiar cursos com pouca saída? — Ouvintes
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Fora do Baralho, episódio extra ao domingo, totalmente dedicado aos ouvintes e às dúvidas que os inquietam. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta semana recebemos algumas perguntas e comentários no e-mail foradobaralho@observador.pt. Se quiser fazer o mesmo, é este o endereço que deve seguir. Nas respostas hoje temos o Jorge Fernandes e nas perguntas, Jorge, vamos a duas. A primeira que tenho é de Pedro Sousa, que pergunta: por que o Estado português continua a financiar cursos superiores que não têm saída profissional ou cujo mercado está saturado, como Direito ou a generalidade dos estudos humanísticos?
Olá, Sara. Antes de mais, agradecer ao nosso ouvinte pela pergunta. É sempre bom quando temos engajamento desse lado. Eu estou completamente em desacordo com o ouvinte. Vamos por partes. Eu acho que naturalmente o Estado tem que ter atenção às necessidades do mercado de trabalho e tem todo o sentido que, por exemplo, não se esteja a financiar o mesmo número de pessoas formadas em Grego e Latim ou em Filosofia do que em Engenheiros. Eu admito perfeitamente isso e acho bem, e tem todo sentido. Aliás, de resto, se olharmos para os números, penso que Direito não é bem verdade, mas a esmagadora maioria dos cursos de Letras tem muito poucos lugares comparado com cursos de Engenharia, de Medicina, etc. Dito isto, acho que o ouvinte, na minha opinião, está equivocado, porque a Universidade tem muitas funções que vão muito para além da formação profissional e desta visão utilitária do ensino universitário como formar pessoas, pôr ao mercado de trabalho. Naturalmente que isso é importante e talvez seja a função primordial, mas a educação, no sentido mais geral do termo, e qualquer país que se preze e qualquer universidade que se preze, tem que perceber que as universidades, para além de formar pessoas, têm funções como a investigação, como manter o conhecimento vivo, manter um conjunto de pensamento e de práticas humanístico-filosóficas, que no fundo são a base da civilização ocidental, tal como nós a entendemos. A universidade tem o dever e o Estado, no fundo, quer dizer, a ideia de que o Estado perde dinheiro, há coisas intangíveis. Isto é a mesma coisa que nós dizermos ou fazermos a eterna pergunta: será que o Estado deve deixar de financiar orquestras ou música erudita ou bailado? Haverá pessoas que acham que o mercado trata de tudo ou que são coisas que têm públicos de nicho ou que têm muito pouco interesse. É uma ideia perfeitamente legítima. Na minha opinião, eu acho que não, porque comparando essas coisas de nicho com coisas de nicho na universidade e no ensino, o Estado tem a obrigação, precisamente de nós todos continuarmos a financiar bens que são bens coletivos, que mantêm viva a nossa sociedade e mantêm vivas certas práticas que podem ser menos comuns, mas cuja importância é, sem dúvida, muito elevada.
Mas a pergunta deste ouvinte é sobre determinados cursos, não é? Cursos que há em muitas universidades diferentes, com muitas vagas.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.