Pessoas com transtornos psiquiátricos também envelhecem: como a esquizofrenia e o transtorno bipolar mudam ao longo da vida
Envelhecer com esquizofrenia ou transtorno bipolar significa continuar convivendo com uma condição psiquiátrica em uma fase da vida que traz novas necessidades de cuidado. Com os avanços no tratamento, pessoas com transtornos psiquiátricos graves estão vivendo mais e o acompanhamento precisa considerar também as transformações que acontecem com o passar dos anos.
Esse foi um dos temas discutidos no Congress on Brain, Behavior and Emotions 2026, em Porto Alegre (RS) . Durante o painel “Esquizofrenia e transtorno bipolar no envelhecimento: cognição, funcionalidade e cuidado longitudinal”, a psiquiatra Clarissa Severino Gama abordou as consequências clínicas desse processo e a importância de um cuidado contínuo.
Memória, atenção e funções executivas — relacionadas, por exemplo, à capacidade de planejar, organizar tarefas e tomar decisões — podem sofrer alterações importantes durante o envelhecimento. Os pacientes também podem apresentar maior risco de comprometimento cognitivo e demência, o que reforça a importância de acompanhar essas funções durante o tratamento.
Além dos sintomas característicos de cada transtorno, é importante observar possíveis mudanças na capacidade de realizar atividades cotidianas e manter a autonomia. Administrar o próprio dinheiro, trabalhar, cuidar da casa e preservar relações sociais e afetivas são alguns dos aspectos que ajudam a avaliar como a pessoa está lidando com as demandas do dia a dia.
Essa atenção pode precisar começar antes da idade normalmente associada à velhice. Segundo a especialista, em alguns pacientes, características relacionadas ao envelhecimento podem aparecer por volta dos 50 anos . Com isso, cuidados geralmente adotados na população idosa podem precisar ser considerados mais cedo, inclusive na escolha e na dosagem dos medicamentos.
Nem todas as pessoas com esquizofrenia ou transtorno bipolar envelhecem da mesma maneira . Essa trajetória pode ser influenciada por diferentes fatores, entre eles o número de episódios da doença, a presença de outras condições de saúde, processos inflamatórios, estilo de vida, acesso e adesão ao tratamento.
A recorrência dos sintomas merece atenção especial. Segundo Gama, o número de episódios ao longo da vida é um importante marcador de gravidade e cronificação. Evitar que o paciente permaneça sintomático e reduzir a ocorrência de novas crises são, portanto, partes importantes do cuidado.
O acompanhamento também não deve se restringir à saúde mental. Pessoas com transtornos psiquiátricos graves apresentam maior risco de problemas como infarto , acidente vascular cerebral (AVC) , câncer e doenças metabólicas.
Por isso, o psiquiatra também precisa estar atento às condições clínicas do paciente e, quando necessário, encaminhá-lo para outros profissionais. Integrar os cuidados com a saúde mental e física é importante porque as condições clínicas também podem interferir na evolução do transtorno e na qualidade de vida.
Nesse contexto, fatores cotidianos ganham relevância. Alimentação adequada e atividade física fazem parte das estratégias que podem contribuir para melhores desfechos.
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