Maria Klien, psicóloga: “Quanto mais tentamos prever os acontecimentos, menos conseguimos permanecer no presente”
Responder mensagens assim que chegam, preencher cada intervalo do dia, fazer cursos, manter uma rotina de exercícios, produzir conteúdo e estar sempre disponível.
Na chamada cultura da produtividade, descansar pode parecer desperdício de tempo e, para algumas pessoas, até provocar culpa .
A psicóloga e neuropsicóloga Maria Klien chama atenção para o impacto dessa lógica sobre a saúde mental e para a dificuldade crescente de simplesmente parar.
Pós-graduada em Psicopedagogia e com formação em Neuropsicologia pelo Hospital Israelita Albert Einstein, Klien atua com psicoterapia, utilizando uma abordagem integrativa e a psicologia junguiana, além de trabalhar com temas relacionados à ansiedade, medo e pânico.
Para ela, o problema não está em trabalhar, estudar ou buscar realização pessoal.
A questão aparece quando a produtividade deixa de ser apenas uma atividade e passa a funcionar como medida de valor.
O tempo livre, nesse cenário, precisa ser justificado por alguma finalidade: aprender algo, cuidar do corpo, organizar a casa ou realizar uma nova tarefa.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que ambientes de trabalho com cargas excessivas, ritmo intenso, jornadas longas e pouco controle sobre as atividades estão entre os fatores que podem representar riscos psicossociais à saúde mental.
Pesquisas recentes também começaram a investigar um fenômeno chamado intolerância ao descanso (rest intolerance) , que descreve situações em que a pessoa sente culpa, ansiedade ou desconforto durante momentos de lazer porque acredita que deveria estar trabalhando ou sendo produtiva.
Para Klien, parte desse funcionamento está relacionada à necessidade de antecipar acontecimentos.
A mente tenta prever respostas, problemas, perdas, rejeições e possíveis cenários futuros como uma forma de se preparar para aquilo que ainda nem aconteceu.
“Quanto mais tentamos prever os acontecimentos, menos conseguimos permanecer no presente.
A experiência da vida deixa de acontecer no agora e passa a existir apenas em projeções futuras.
Muitos já não habitam o próprio cotidiano e passam a se basear somente em hipóteses”, afirma a psicóloga.
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