'Barulhos' é um convite para a criançada enfrentar os estrondos da vida
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Criança sonha com o que vive, e quem cresce em São Paulo dorme embalado por britadeira, freada de ônibus e sirene de ambulância. Ao estrear no teatro para as infâncias, o grupo 28 Patas Furiosas resolveu levar esse cancioneiro urbano a sério. Em "Barulhos", em cartaz no Teatro Anchieta do Sesc Consolação , o luto e o medo de perder o próprio teto viram matéria de sonho, espanto e brincadeira.
A encenação de Valéria Rocha e o texto de Tadeu Renato nasceram de conversas francas com a criançada paulistana. Em cena, a menina Rosa tenta digerir a partida da avó enquanto dorme. No delírio da noite, o chão treme, as casas saem do lugar e ela topa com outra garota que perdeu o rumo de casa. Para achar o caminho de volta, a dupla se junta a uma turma curiosa: uma onça tagarela, uma cabeça falante que passeia sem corpo e um cientista meio atrapalhado tentando entender o abalo sísmico da metrópole.
A graça da montagem está em não esconder a vida como ela é. A diretora musical Júlia Ávila pega o caos sonoro da cidade e o transforma em batida viva. Enquanto isso, a luz de Dimitri Luppi e Wagner Antônio faz mágica com sombras e fachos precisos, inventando mundos inteiros no vazio do palco sem precisar de cenografia pesada. O elenco —Gabriel Bodstein, Isabel Wolfenson, Jennifer Souza, Joy Catharina e Sofia Botelho— joga junto com vitalidade e humor, sem tratar o público mirim como ingênuo.
Em determinado momento, os atores jogam a bola para a plateia: "O que vale mais: ter um sonho bom e esquecer, ou ter um sonho ruim e se lembrar?" A conversa rende, mas o melhor fica para o fim. Quando o espetáculo termina, o elenco chama todo mundo para invadir o tablado e reerguer as casas que desmoronaram durante a história. Vira uma bagunça boa de reconstrução coletiva.
Fica apenas o alerta de rota para as famílias: a experiência funciona às mil maravilhas para quem já passou dos 7 ou 8 anos e dá conta do barulho e das sombras. Para os bem pequenininhos, o ruído no escuro pode render susto e choro no meio da sessão —e para eles a programação teatral da cidade costuma ter opções mais acolhedoras e suaves. Para os mais velhos, "Barulhos" diverte e emociona ao mostrar que, mesmo quando o mundo parece desabar, sonhar junto ainda é a melhor ferramenta para colocar a casa de pé.
O processo de "Barulhos" parte de relatos oníricos reais de crianças. Como foi filtrar e lapidar esse material para que ele não virasse apenas uma colagem de causos infantis, mas sim uma fábula coesa sobre o luto e a metrópole?
O sonho traz uma lógica própria, que não é a da realidade, mas tampouco é sem sentido. O desafio foi identificar o que havia de recorrente e potente nesses relatos, criando uma dramaturgia que preservasse essa liberdade e conectasse imagens a acontecimentos.
Imagens como uma casa que anda, uma cidade em deslocamento, uma menina procurando seu lar, uma onça ambígua, uma cabeça sem corpo e, sobretudo, o barulho ganharam função estrutural.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.