Ninguém gosta das perguntas incômodas (mas é preciso fazê-las)
Jornalista e quadrinista, é ombudsman da Folha. Já foi secretária-assistente de Redação, editora de Diversidade e editora-adjunta de Especiais e Ilustrada
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"O que está acontecendo com o jornalismo? Com a comunicação?", perguntou Gabriela Duarte no vídeo em que se manifestou a respeito da entrevista que deu à Folha ao lado de sua mãe, Regina Duarte.
A conversa foi um grande sucesso viral do jornal na última semana e expôs a dinâmica em que filha e equipe reprovavam a mãe quando esta tentava responder questões sobre política, o que incluía a breve e barulhenta passagem de Regina Duarte pelo governo Jair Bolsonaro , em 2020.
"Sinceramente, acho que a gente não vai entrar nesse assunto. Vai falar da peça, do que a gente tá fazendo agora", disse Gabriela, já que para as atrizes o interesse primordial da entrevista era divulgar a estreia do espetáculo "A Filha da…" em São Paulo.
Gabriela interrompeu a resposta da mãe sobre qual seria o custo da vida política. Regina pediu: "Deixa eu falar". Dali sairia o título da entrevista: "Tem gente que não me perdoa ter ido. Tem gente que não me perdoa ter voltado".
A filha tentou dirigir a conversa apenas para a peça. O repórter da Folha foi didático ao explicar: "É parte do meu trabalho fazer perguntas". E que elas poderiam respondê-las ou não.
"Não vai responder isso", interrompeu Gabriela quando a mãe, em seguida, foi questionada sobre se nutre por Flávio Bolsonaro (PL) a mesma admiração que teria pelo pai dele, Jair. O diretor da peça também fez uma intervenção: "Regina, eu acho que já deu". "Cara, para de querer responder" foi a ordem da filha à mãe quando a questão era se voltaria a aceitar cargo público. "Mas eu não aguento, Gabi." "Aguenta, cê é adulta. Não responda, qualquer coisa que você responder vai…"
As redes, como é típico delas, promoveram opiniões divergentes sobre a entrevista. Algumas pessoas dividiram com Gabriela Duarte a avaliação de que a insistência do repórter foi inadequada.
"O jornalismo pode incomodar, contradizer, questionar, mas ele também precisa ouvir e respeitar, inclusive quando a resposta não entrega a manchete que ele queria, a manchete esperada. Quando o entrevistado entra preparado para se defender, como aconteceu comigo, e não para conversar, alguma coisa já se perdeu", disse Gabriela no vídeo-comentário em que repreendeu também o fato de o jornal "insistir em política partidária num caderno de cultura, quando a pauta deveria ser o teatro, a arte".
A questão é que o jornalismo não só pode como deve incomodar, contradizer e questionar, além de ouvir e respeitar.
"Agora, é importante lembrar: a imprensa não precisa ser protegida das críticas, mas sim do sensacionalismo", discorreu Gabriela, no que está certa. Ocorre que o repórter estava fazendo o que se espera de um bom repórter.
O problema da Folha , nesse caso, foi não ter dado ao texto o tratamento que ele merecia para refletir a complexidade de toda a interação. Quem só lê a reportagem perde muito da tensão registrada no vídeo.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.