Vorcaro e Bernie Madoff
Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada"
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A delação premiada é uma prerrogativa da Viúva. Em dezembro de 2008, o FBI prendeu o financista Bernie Madoff, que brilhava sentado numa pirâmide de US$ 65 bilhões. Comparado com suas conexões, Daniel Vorcaro com seu Banco Master era um flanelinha. Madoff tinha o que contar, um de seus fundos juntava boa parte da granfinagem internacional (com alguns brasileiros). Não se conhecem os detalhes de suas conversas com o Ministério Público , mas o fato é que nem o governo, nem ele puseram a carta da delação na mesa.
Madoff reconheceu-se culpado e viu-se condenado a 150 anos de prisão. A Viúva depenou-o leiloando suas casas, seus 40 relógios, faqueiros e cuecas. O finório morreu na cadeia em 2021, aos 82 anos.
Desde sua prisão, Daniel Vorcaro mudou o eixo de seu caso. Fala-se mais de sua delação do que de sua fraude. Teve rejeitadas duas propostas de colaboração e trocou de advogados, juntando mais um há poucas semanas.
Com as provas, grampos e contratos já reunidos pela Polícia Federal , o futuro de Vorcaro, como o de Madoff, está escrito nas estrelas. Se ele quer falar, ótimo. Se não, paciência.
Há um risco real de o caso acabar como o desfecho do de um hipotético crime da pensão da rua Bento Lisboa.
O advogado foi ao delegado e informou: "Doutor, os dois casos são conexos".
Se colasse, embaralhava-se o assassinato da marafona. Na vida real, quase um século depois, isso foi o que aconteceu com a Operação Lava Jato. A escalafobética delação do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, também rejeitada duas vezes, serviu para tudo, inclusive para colocar o juiz Sergio Moro no ministério de Jair Bolsonaro . Só não serviu para avançar com a investigação.
Já a colaboração do tenente-coronel Mauro Cid , chefe da ajudância de ordens de Bolsonaro, teve efeito inverso.
O futuro de Vorcaro, como o de Madoff, está nos autos e o curso das investigações pode puxar os muitos fios dessa meada. O sonho do banqueiro, bem como de suas milícias políticas, financeiras e noturnas de todos, é a anulação do processo. Ele resolve o problema do andar de cima da fraude, sem incriminar vivalma.
Se o banqueiro Daniel Vorcaro quiser colaborar com a Viúva e se a Boa Senhora quiser ouvi-lo, a conversa pode começar com a listagem dos esconderijos onde ele colocou seu patrimônio. No lance seguinte, Vorcaro pode ser convidado a revelar suas conexões com cidadãos acima de quaisquer suspeitas a respeito dos quais a Polícia Federal já coletou dados que mantém no sigilo do inquérito.
Começando-se pelo patrimônio, o caso do Master volta ao ponto de partida. Afinal, foi para amealhá-lo que Vorcaro teceu sua rede de amizades. Livre do patrimônio, resta-lhe a sua sinceridade nas amizades que pretende proteger. Se o doutor não quiser, mandem-no de volta para a cela.
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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www1.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha · Poder.