Dez coisas que o jornalismo pode fazer diante de um candidato que mente
Candidatos que mentem compulsivamente não participam de entrevistas para esclarecer o eleitorado, mas para sequestrar a credibilidade do veículo e usá-la ao seu favor. Sabem que uma afirmação falsa, quando transmitida ao vivo, recortada em vídeos curtos para as redes sociais ou distribuída sob a logomarca de um jornalismo respeitado, ganha a aparência de informação.
Entrevistar um mitômano político, portanto, não é apenas fazer perguntas e anotar respostas, mas impedir que uma operação de desinformação se disfarce de cobertura eleitoral. Não se trata de abandonar a imparcialidade, mas de compreender que objetividade não significa oferecer à mentira o mesmo tratamento dispensado aos fatos.
Atire a primeira pedra o jornalista que, depois de encerrada uma entrevista tensa ou complexa, na solidão do banho ou antes de dormir, nunca pensou algo como "merda, eu devia ter retrucado" ou "putz, poderia ter feito de outro jeito". Todos nós falhamos ou erramos, e isso faz parte. Mas a responsabilidade não é de um indivíduo, mas do jornalismo como um todo.
A mentira está presente nas relações de poder desde que o primeiro hominídeo contou lorota para garantir o controle do bando. A mentira faz parte da política, da mesma forma que revelá-la é trabalho de fiscalização do jornalismo. Tenho conversado com colegas professores de jornalismo, contudo, sobre o desafio de cobrir eleições em um ambiente em que a mentira viraliza em tempo real. Pois não basta fazer perguntas duras, é preciso reagir diante das respostas.
Dado o início da campanha eleitoral, trago aqui algumas sugestões que enumeramos. São cuidados para não virarmos figurantes no espetáculo de quem fabrica realidades.
Um candidato que mente de forma sistemática raramente improvisa tudo. Ele é ensaiado por equipes de media training para reciclar números falsos, distorcer acontecimentos conhecidos e repetir histórias já desmentidas porque sabe que a insistência produz familiaridade. E familiaridade, para muita gente, soa como verdade.
Mapear previamente essas narrativas, reunir dados, documentos e declarações anteriores e preparar contestações curtas. Quem chega desprevenido passa metade da entrevista tentando entender a falsidade e a outra metade ouvindo sua repetição.
A entrevista não pode seguir normalmente depois de uma afirmação comprovadamente falsa, como se o candidato tivesse apenas expressado uma opinião controversa. Fato não é questão de opinião.
O jornalista deve interromper, apontar a falsidade e pedir que o entrevistado apresente provas. "Isso não é verdade" pode ser uma frase jornalisticamente mais responsável do que o tradicional "há controvérsias". Quando não há controvérsia, inventá-la em nome de uma pretensa neutralidade é prestar um serviço ao mentiroso.
Para quem está ao vivo pode ser difícil dizer que algo é uma mentira com certeza absoluta, só quem já esteve lá sabe como tudo é complicado.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.