Em mídia e mídia social, guerra narrativa sufocou a tragédia no Himalaia
A BBC afirmou no fim de semana que as cenas de pessoas correndo quando a avalanche chegou ao Porto Gyirong "se espalharam pelas redes sociais e chegaram às telas do mundo todo. Exceto aqui, na China". O enunciado era "Imagens das inundações no Tibete não estão sendo exibidas na China — e sabemos pouco sobre as vítimas".
"Tendo monitorado as redes sociais chinesas ao longo da semana, posso afirmar que é enganoso falar que 'Imagens das inundações no Tibete não estão sendo exibidas na China'. Desde a noite de quarta, houve ampla divulgação de imagens das inundações e suas consequências no Douyin, Kuaishou, Weibo e outras plataformas."
Entrando na semana, o alto dos rankings de rede social e vídeo na China continuou voltado ao tópico Porto Gyirong. Acuada, a BBC mudou o enunciado , mantendo porém que se sabe pouco das vítimas. Era referência ao número de mortos, anunciado gradual e lentamente, comparado ao de desaparecidos.
Usuários chineses e estrangeiros de mídia social continuaram questionando o canal, com registros como o de que o Japão até hoje contabiliza mais de dois mil desaparecidos do terremoto e tsunami de 2011. Porque não se devem anunciar mortes sem a confirmação.
Não faltou censura aberta, inclusive quanto às mortes. Polícias de duas regiões chinesas divulgaram punições administrativas, ao que parece como exemplos, contra Qiu, Liu e Tan — só se mencionam os sobrenomes dos denunciados, na China. Os três usuários, supostamente "para atrair atenção e fãs", falaram em "milhares de mortos", "mais de três mil mortos".
Houve ainda redução no compartilhamento de cenas que mostravam pessoas em desespero, antes de morrer, e supressão total das imagens com corpos em pedaços, rasgados pela avalanche de neve e pedras. A justificativa, segundo ouvi de jornalistas chineses, foi evitar a exposição das próprias pessoas. Mas pode-se avaliar como censura de informação.
A prioridade da mídia estatal chinesa e dos usuários mais nacionalistas foi, na verdade, se contrapor às versões do desastre espalhadas por taiwaneses e indianos.
Jornais e o Jun Zhengping , perfil de mídia social ligado ao Exército de Libertação Popular, questionaram a "fabricação de notícias falsas" por políticos da ilha, como a de que Pequim não teria alertado o Nepal sobre a avalanche.
Na plataforma Weibo, com usuários sempre em choque com indianos, o foco foi a hipótese levantada por estes de que a avalanche teria sido causada por infraestrutura chinesa como o próprio Porto Gyirong. Diversos perfis festejaram que usuários do Nepal questionaram , eles próprios, as denúncias indianas.
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