Corinthians, Caracas e as veias abertas do futebol sul-americano
Em 1971, o escritor uruguaio Eduardo Galeano publicou As Veias Abertas da América Latina , obra na qual discutiu as desigualdades históricas, econômicas e políticas que atravessam o continente.
Mais de cinco décadas depois, uma partida de futebol feminino disputada em Quito, no Equador, oferece um paralelo com algumas das contradições abordadas pelo autor.
Na noite de domingo (18), o Corinthians goleou o Caracas FC por 7 a 0, garantiu antecipadamente a classificação às quartas de final da Libertadores Feminina e confirmou sua superioridade técnica, mas o placar não conta toda a história de uma equipe venezuelana que precisou superar obstáculos migratórios para disputar a Libertadores.
A diferença entre Corinthians e Caracas é evidente em aspectos como investimento, estrutura, experiência internacional e qualidade dos elencos, fatores que ajudam a explicar o domínio das brasileiras e que não podem ser ignorados na análise esportiva.
Entretanto, a participação das venezuelanas foi comprometida por circunstâncias geopolíticas, depois que a exigência de vistos para entrada no Equador provocou atrasos na chegada da delegação e obrigou a reorganização do calendário da equipe na competição continental.
O Caracas, que teve sua participação ameaçada pelas dificuldades para entrar no país-sede, disputou a estreia contra o Santa Fe à meia-noite de sábado (17), quando foi derrotado por 3 a 2, e precisou voltar ao gramado no domingo, às 21h, para enfrentar o Corinthians.
Entre o início das duas partidas, passaram-se apenas 45 horas, intervalo que se torna ainda mais preocupante quando consideradas as viagens, as alterações de planejamento, o desgaste físico e o tempo necessário para a recuperação das atletas.
Não se trata de afirmar que, em condições diferentes, o Caracas teria vencido o Corinthians ou mesmo evitado a goleada.
A superioridade alvinegra foi construída ao longo de anos de investimentos e resultados expressivos no futebol sul-americano.
A questão é outra: uma competição internacional precisa oferecer condições minimamente equilibradas de preparação, descanso e participação para todas as equipes, independentemente de suas possibilidades de conquistar o título.
E, para esta análise, vai além de culpar a Conmebol e o formato curtíssimo da Libertadores, sem tempo hábil para mudança em situações excepcionais, mas de pensar como políticas migratórias interferem em tudo, inclusive no futebol.
Continua após a publicidade Caracas FC é goleado pelo Corinthians por 7 a 0 na segunda rodada da Libertadores Feminina 2026. (Staff Images Woman/CONMEBOL) Staff Images Woman/CONMEBOL/Divulgação As fronteiras que separam países do mesmo continente O episódio envolvendo o Caracas expõe uma contradição da integração sul-americana.
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