Cury é o Marçal educado, que não limpa dente com palito nem cospe no prato
Não se sabe quantos são, do que se alimentam nem onde habitam. Mas eles existem e às vezes se manifestam em pesquisas eleitorais, rodas de conversa, mesas de bar, almoços da família. Maioria nas manifestações antipolítica, os nem-nem (nem Lula, nem Bolsonaro) têm um tempo de vida diferente dos demais eleitores. Estão por todo lado o tempo todo, mas vão para cama cedo e hibernam todos os anos nos dias de votação, quando transformam a tendência revolucionária em traços de preferência.
A busca pela chamada terceira via é o elixir da longa vida de candidaturas alternativas às duas forças políticas hegemônicas do Brasil desde 2018.
Neste ano, parecia não haver opção para quem se queixava da ausência de alguém vestido de oposição a tudo isso o que está aí (o que inclui tudo). A disputa presidencial parecia uma grande escala 6 para 1, em que o candidato mais identificado com a esquerda enfrentava sozinho um Bolsonaro autêntico e suas cópias com alguma representação no Congresso. Tem o Bolsonaro de Minas, o de Goiás, o de São Paulo, o veterinário e o do plano superior.
A diferença é que este último quer os votos do Zero Um sem exatamente assustar os petistas e simpatizantes. Augusto Cury (Avante) jura ter uma cabeça de direita com um coração, se não de esquerda, atento às dores do povo.
Nas redes, um dos cartões de visita é um vídeo em que simulacros de eleitores do PT e do PL se engalfinham falando em um tom de voz parecido com o do Sloth, o personagem limitadinho do filme "Os Goonies". Quem aparta o conflito e diagnostica que os brigões estão malucos é o arquétipo do pacificador. "Se vocês não se curar (sic), eu Cury".
Parece mais um trocadilho infame, como costuma aparecer nesta época da campanha. Mas não é. Psiquiatra de formação, Cury entrou em cena distribuindo carteiradas sobre os milhões de livros vendidos como autor de autoajuda (que ele não gosta de chamar de autoajuda) e um projeto de nação baseado na ideia de que se todo mundo acreditar no próprio potencial, seríamos uma potência econômica, e não uma nação de CEOs frustrados.
Na eleição para a Prefeitura de São Paulo, um pretenso conselheiro espiritual tentou fazer o mesmo. Só que aos berros.
Cury é o Pablo Marçal que senta à mesa, não limpa o dente com palito nem cospe no prato do amiguinho.
Mas, torcida e retorcida, a conversa é a mesma: com discurso messiânico e uso recorrente do Santo Nome em vão, ambos se apresentam como outsiders que não são nem gostam da política, já venderam livros, cursos e palestras o suficiente para encher a conta bancária, não precisam dos eleitores para viver mas os eleitores precisam deles.
A proposta é dar um choque de gestão numa máquina pública cujos acionistas são os eleitores. Não teve lugar do mundo que essa ideia deu certo, mas isso não está no livro.
Marçal era o jovem agressivo que queria implodir tudo ao redor. Cury, de 67 anos, quer juntar mundos opostos e fincar a bandeira da paz. Parece tentador, até que chegamos na segunda página.
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