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Quando a literatura adivinha a guerra

Diário de Notícias ·
Quando a literatura adivinha a guerra

A capa do mais recente romance de Patrícia Portela, Hoje, 3 de Maio , reproduz o quadro Os fuzilamentos de três de Maio que Francisco Goya pintou em 1814, deixando para a história a repressão francesa em Madrid às ordens de Napoleão.

218 anos depois, o romance chegou em maio às livrarias, coincidindo com uma época em que a guerra regressou à Europa.

Patrícia Portela iniciou a escrita de Hoje, 3 de Maio antes da invasão da Ucrânia pela Rússia (2022), da destruição de Gaza por Israel após um ataque da Palestina (2023) e dos bombardeamentos maciços do Irão pelos EUA (2026).

Diz: “Nesses primeiros dias, ninguém pensava que iríamos viver um tempo de guerras e regressar à situação inesperada de um conflito desta dimensão em que vivemos e assistimos.

Daí que se possa dizer que a literatura tem um poder muito estranho de antecipação, sendo que estes acontecimentos fizeram com que o livro se tenha tornado cada vez mais urgente.

Houve uma altura que senti obrigação de o terminar por achar que poderia também ser responsável pelo que estava a acontecer e, a dado momento, até me perguntava se seria eu que estava a causar a guerra?” A preparação do romance começou vários meses antes da invasão da Ucrânia com a observação desse quadro de Goya: “Para mim, é o grande pintor modernista e do povo, e interessava-me muito escrever sobre ele, mesmo não sabendo bem no que me estava a meter.

Entrei no projeto toda contente e rapidamente percebi o quanto era gigante, tanto que a versão inicial do livro era enorme e foram precisos muitos cortes.

Em fundo está o meu ponto de partida, de a violência estar sempre presente e ainda hoje continuarmos a viver esse dia de 3 de maio.” A escolha do tema não foi casual, conforme explica, enquanto esclarece a verdade sobre a “lenda” de que esteve no Museu do Prado durante um mês a olhar para o quadro: “A pintura é para mim uma arte fundamental, até mais do que a literatura, porque tem a ver com a minha formação.

Queria pensar sobre um quadro e o que é que ele diz, tanto que permaneci bastante tempo a observá-lo.

É verdade que estive um mês a olhar para ele durante uma residência e que nos três anos seguintes voltei lá várias vezes.

No entanto, com o fim da residência fiquei seriamente preocupada porque passara um mês a olhar para o quadro mas escrevera muito pouco.

Tinha uma espécie de diário de bordo onde ia escrevendo sobre as pessoas que passavam, o que ouvia das visitas guiadas, pensamentos desgarrados que muitas vezes não tinham a ver com o livro e onde testava imensas teorias.

Ou seja, saí de lá preocupadíssima por ter passado um mês a olhar para um quadro e sair sem um plano para o livro.” A experiência fez com que Patrícia Portela recordasse a frase de José Saramago “Se podes olhar, vê.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.

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