Diretora da Cruz Vermelha pede ao mundo que não abandone afegãos
"Vemos hoje uma população a lutar para sobreviver, com necessidades humanitárias significativas, um sistema de saúde em colapso e elevados níveis de desemprego", disse Yasmine Praz Dessimoz, em entrevista à agência de notícias francesa AFP, após uma visita de vários dias ao Afeganistão.
Na terça-feira passada, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) alertou que um milhão de crianças que sofrem de subnutrição aguda grave no Afeganistão correm risco de vida se nada for feito para as ajudar.
Devido à diminuição da ajuda internacional, 100 clínicas que tratavam a subnutrição pediátrica fecharam no país, lamentou recentemente a ONU.
"Hoje, o Afeganistão raramente está no centro das atenções dos media ou mesmo em discussões internacionais de alto nível", lamentou Praz Dessimoz, sublinhando que "as comunidades afegãs não podem ser abandonadas".
O CICV não escapou à redução da ajuda e dos donativos internacionais, mas manteve o Afeganistão como uma das suas cinco principais operações globais.
"Tivemos de fazer escolhas muito difíceis para nos mantermos ao lado do povo afegão", reconheceu a diretora, acrescentando que, com "o colapso do sistema de saúde em todo o lado, precisamos de estar em todo o lado".
O CICV apoia 46 clínicas e sete centros de reabilitação no Afeganistão, especialmente para pessoas feridas nas guerras.
"Decidimos também dar prioridade à área ao longo da Linha Durand [que serve de fronteira com o Paquistão], onde existe um conflito internacional com o Paquistão", explicou, referindo que o CICV mantém laços tanto com Cabul como com Islamabad.
Os confrontos entre estes dois países vizinhos intensificaram-se em outubro passado e continuaram durante a primavera, deslocando milhares de pessoas no Afeganistão e resultando em centenas de civis mortos e feridos.
Questionada sobre as restrições impostas pelas autoridades talibãs às mulheres, que, entre outras coisas, não têm permissão para prosseguir estudos além do ensino primário ou para exercer determinadas profissões, a representante do CICV manifestou a sua preocupação com o futuro das profissões médicas e o acesso das mulheres aos serviços de saúde.
"Conseguimos manter a nossa equipa feminina, mas a principal preocupação é: 'O que vai acontecer a seguir?', porque se as novas gerações não forem educadas, não haverá substitutos", admitiu Praz Dessimoz.
A responsável do CICV afirmou ter levantado a questão junto das autoridades afegãs e reunido com o vice-primeiro-ministro talibã, Abdul Salam Hanafi.
"É importante dialogarmos com eles e partilharmos as nossas preocupações", comentou.
O Governo talibã, que assumiu o poder há pouco mais de cinco anos, é oficialmente reconhecido apenas pela Rússia.
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