Putin não precisa de conquistar a Europa. Basta tomá-la por dentro
Um drone com explosivos, largado junto a um avião num aeroporto alemão, fez mais pela lucidez estratégica da Europa do que anos de relatórios. Mas para perceber o que Leipzig significa, convém primeiro arrumar os conceitos, gastos de tanto uso vago. A Guerra Fria não foi uma tensão qualquer entre potências. Assentava em três pilares: dois pólos de dimensão incomparável, cada um com o seu bloco; duas ideologias messiânicas a disputar o mundo inteiro; e um tabu absoluto sobre o confronto directo, imposto pela ameaça nuclear. Foi, apesar do terror, um sistema estável. Chamaram-lhe a longa paz.
A guerra híbrida é o contrário disso. É a busca de fins estratégicos pela combinação de meios militares e civis, na zona cinzenta entre a paz e a guerra, sob negação plausível, para corroer a vontade do adversário sem cruzar o limiar que legitimaria uma resposta armada. O que a distingue não são os instrumentos, pois a subversão é antiga. É a sua integração sistemática, potenciada pelo ciberespaço, e um alvo que já não é o território, mas a mente: a confiança nas instituições, a coesão social, a vontade de resistir.
Por isso é errado chamar Guerra Fria ao confronto com a Rússia de hoje. Falta-lhe a bipolaridade: Moscovo não é um pólo simétrico, é uma potência em declínio, com uma economia do tamanho da italiana e uma dependência quase vassala face à China. E falta-lhe a ideologia universal: Putin não oferece ao mundo um modelo de sociedade, apenas o desejo de reaver um império. Chamar-lhe Guerra Fria concede-lhe a paridade que procura e não tem.
Há uma segunda razão, quase inversa, para recusar o rótulo: isto é, em certos aspectos, mais perigoso. A Guerra Fria era estável porque tinha regras, linhas vermelhas e uma dissuasão respeitada como liturgia. A guerra híbrida vive de dissolver essas regras. Era um equilíbrio de terror com regras; é um desequilíbrio de audácia sem regras. E o que dela se espera não é o regresso à tensão estável do passado, mas uma zona cinzenta em erosão contínua, onde a falta de limiares multiplica o risco de escalar sem querer.
É a esta luz que se lê Leipzig, onde um drone com explosivos surgiu junto a um avião de carga ucraniano, e que a Alemanha atribuiu formalmente aos serviços russos. Não é um caso isolado. É mais um ponto numa curva já inegável, a de uma hostilidade estrutural, permanente e assumida entre a Rússia e o espaço euro-atlântico. Somem-se-lhe os drones sobre a Polónia e a Roménia, a atribuição formal da NATO, os cerca de 144 aparelhos de vigilância que o IISS documentou, os cabos cortados no Báltico, os assassínios e as sabotagens, os incêndios em armazéns, a interferência eleitoral. É uma campanha, não uma série de acidentes. E a resposta, o fecho do consulado de Bona, as expulsões, as sanções, os controlos de fronteira, mostra uma Europa que deixou de minimizar para atribuir e retaliar. Entrámos numa fase nova. E mais perigosa.
Há aqui um detalhe decisivo. A guerra híbrida vive de ficar abaixo do limiar; é esse o seu segredo. Um drone explosivo junto a um avião num aeroporto civil europeu está perto demais desse limiar para preservar a negação.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.