Quando o conflito chega à escola
Ao longo dos nove artigos anteriores, acompanhámos o testemunho do José sobre os primeiros sinais de alienação parental que identificou ainda durante o casamento, passando pela degradação da relação conjugal, a separação e o início do afastamento das filhas. Analisámos depois as dificuldades vividas após a saída de casa, o percurso até à regulação das responsabilidades parentais, os sucessivos incumprimentos das decisões judiciais e as dificuldades nas transições das crianças entre os pais. Nos artigos mais recentes, centrámo-nos na importância da intervenção em contexto e no papel dos profissionais, incluindo as dificuldades de comunicação com o Tribunal e o modo como, em situações de elevada conflitualidade parental, podem acabar envolvidos no conflito.
Neste décimo artigo, acompanhamos um novo momento deste percurso, a tentativa de transferir as transições das crianças entre os pais para o espaço da escola, procurando encontrar um espaço mais neutro e protegido dos comportamentos de alienação da mãe. Contudo, segundo o testemunho do José e aquilo que me foi possível observar diretamente durante a intervenção, alterar o local das transições não significou retirar as crianças da dinâmica de conflito. Os comportamentos que vinham dificultando esses momentos continuaram a manifestar-se, agora também no contexto escolar, levando progressivamente a escola e os seus profissionais a serem envolvidos numa conflitualidade de que, inicialmente, se procurava precisamente afastar as crianças.
Perante as dificuldades que se verificavam nas transições, procurou-se encontrar um contexto que reduzisse o contacto entre os pais e permitisse às crianças passar de um para o outro com a menor tensão possível. A escola surgiu como uma possibilidade. José recordou: “E, portanto, pensando nós que seria mais fácil, porque, nas transições com a mãe, as crianças tinham que demonstrar que não queriam ir, tinham que demonstrar que não gostavam de estar com o pai, e, portanto, foi conseguido que essas transições fossem feitas na escola”. Esta solução parecia permitir que as crianças saíssem das aulas e fossem diretamente com o pai, evitando a presença simultânea dos dois pais. Contudo, segundo o José, as dificuldades não desapareceram. O conflito começou também a manifestar-se dentro do contexto escolar. O José descreveu assim a relação que sentia existir entre si e a escola: “Também a mãe no dia das transições aparecia na escola. A verdade é que a escola sempre teve uma componente de parcialidade… na escola, desde o jardim de infância, quando eu fui lá as primeiras vezes, sentia que era tratado marginalmente, como se fosse uma pessoa não grata. Pedi várias vezes avaliações para ser participante na vida escolar e demorei quase um ano escolar inteiro para conseguir. E tive que ser um bocadinho mais assertivo, chegando à direção da escola e dizendo: “Mas, isto não pode ser, passa-se assim e assim, e se não me dão acesso ao direito que eu tenho de ser pai, vou ter que fazer queixa”. E aí, deram um passo atrás e começaram a dar-me acesso. Mas eu era sempre tratado como se fosse um marginal”.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.