Miranda. "Já gravei o fado que vai tocar no meu funeral"
Agostinho Pereira de Miranda, 77 anos, advogado. É vianense de berço, mas podemos dizer que nasceu verdadeiramente em Benguela, Angola, para onde foi viver aos cinco anos com a sua família. Agostinho fez de tudo um pouco antes de se tornar um dos principais advogados portugueses na área de energia. Foi arquivista, cantor, professor do ensino secundário — e, mais tarde, universitário —, foi jornalista, comentador televisivo e fundou o primeiro sindicato angolano: o Sindicato Livre dos Professores Angolanos.
Lutou contra o salazarismo como independente progressista e hoje é um homem que privilegia, acima de tudo, um diálogo construtivo entre a esquerda e a direita. Foi católico, perdeu a fé e tem uma relação desassombrada com a morte. Tanto que até já escreveu e gravou com a sua própria voz a música que passará no seu funeral.
Na Justiça, foi procurador e inspetor da Polícia Judiciária durante o período revolucionário do 25 de Abril — tendo liderado investigações relevantes, como o roubo das cartas secretas trocadas entre Oliveira Salazar e Marcello Caetano e o atentado à bomba contra a embaixada de Cuba em 1976.
Como advogado, construiu uma carreira de referência na área de energia, nomeadamente na área do petróleo nos Estados Unidos. Conhece, como poucos, os mercados energéticos da Europa, dos Estados Unidos, da América Central e Latina e de Angola — onde teve de lidar de perto com as principais figuras do regime do MPLA, nomeadamente José Eduardo dos Santos e a sua filha Isabel.
É um homem livre e que, numa fase mais calma da sua vida profissional, também se assume como ciclista e fadista — ou melhor, fadisteiro. A vida de Agostinho Pereira de Miranda dava um filme, mas, para já, deu uma longa entrevista de vida para o podcast “Justiça Cega — Especial Verão”.
Nasceu no concelho de Viana de Castelo, mas foi aos cinco anos para Benguela. A sua primeira memória é de Portugal ou de Angola? A minha primeira memória é de Portugal, naquele comboio que me levava, aos meus três irmãos e à minha mãe, como colonos para Angola. Ainda me lembro da canção que a minha tia me ensinou a cantar quando o comboio partisse.
Como é que se chamava a canção? Era uma daquelas canções infantis que ia repetindo ‘o pau bateu no cão, o cão bateu no…’ Era uma destas canções infantis. Foi uma viagem depois num barco, o Uíge. Levou 15 dias a chegar ao Lobito. Os colonos iriam, à partida, trabalhar a terra, o que não era o meu caso. O meu pai trabalhava a pedra, era pedreiro.
Como eram os seus pais e o que faziam? A minha mãe era doméstica, nunca foi outra coisa senão isso. Era uma mulher muito inteligente, mas infelizmente para ela — o que aliás diz muito do país no tempo em que ela era jovem —, era totalmente analfabeta. Não sabia senão escrever o seu primeiro nome: Albina.
Nunca escondeu a sua origem social humilde. Como era a sua vida em Benguela? Falou da questão de não ser um colono, não ia explorar a terra… A minha infância foi razoavelmente dramática, violenta, pobre — e, quando digo dramática, não estou a exagerar. Porque, por alguma razão, aos nove anos eu entrei pela primeira vez num tribunal. Não era réu, naturalmente.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.