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Aquilo que me interessa

Observador ·
Aquilo que me interessa

Cada vez me interessa mais a escala de cada vida humana, o drama peculiar e particular de cada um, as forças que movem cada pessoa — e os seus tropeções, os soluços, os momentos de gaguez. Cada um no núcleo que o move, aquilo por que está disposto a dar a vida, o ódio e o amor no modo como se expressam nos movimentos singulares, os segredos da solidão, as pessoas diante dos seus espelhos privados, quando estão, ou julgam estar, sozinhas, os sonhos e aspirações sabotadas ou facilitadas pela liberdade pessoal ou pelo embate desta com a mecânica política, interessa-me cada um na sua espiral de surdez, a cegueira, a glória, a maldição, a esperança, enquanto expressões do carácter singular. Depois, interessam-me os pequenos círculos, em que cada um se move. Mais os amores viscerais e menos as lealdades extrínsecas, de que desconfio, interessa-me o modo como cada um ilude a percepção aguda da sua solidão no mundo, a acutilante descoberta de que o tempo conjura para o desperdício dos nossos talentos, a noção galopante de que o tempo tem pouca paciência para nós, e não espera por nós.

Interessa-me menos o conjunto. Mesmo estes, interessam-me apenas no modo como impedem ou fazem mover paixões individuais, tenho mais interesse em cada pessoa no seu pequeno mundo, do que em cada um no mundo. Já o mundo, a totalidade externa e abstracta, considero-a apenas na forma como reflecte na alma privada, como incita à acção pessoal, como obstaculiza aspirações, expectativas, desígnios íntimos, a sensibilidade e a inteligência de cada vida tomada no que tem de único e próprio.

Muito cedo na minha vida aprendi doloridamente os enviesamentos, maldades, ilusões, de perder de vista a escala de cada um em prol de um conjunto. Era com frequência a pessoa que estava em desacordo. Conheço o ponto em que o conjunto entra em desacordo connosco e os ardis a que recorre para expelir quem pensa por si.

Mais tarde, conheci outros conjuntos. Havia exigentes porteiros e senhas de acesso. Caracterizavam-se por alimentar a ilusão de que poderíamos aspirar a pertencer, confiando à nossa juventude a virtude de nos deixar cegos ao facto de que jamais faríamos parte.

Colectivamente, quando a escala pessoal se confronta com as forças sociais, conheci os obstáculos de classe. Aprendi que devemos aprender a estimar, respeitar, amar, honrar o lugar de onde viemos. Interessam-me pouco elevadores ilusórios.

Desconfio sempre que querem falar por mim e quando imaginam que falo pelos outros. Enquanto escritora e enquanto pessoa e enquanto mulher, não tenho a menor ambição de ensinar o que quer que seja. Estes interesses pertencem ao domínio da escala da minha vida, que é aquele do qual brota o que escrevo.

Interessa-me o drama da família sem dinheiro para ir de férias. Não me interessam nada as multidões e os lugares onde vão e aquilo que consomem.

Interessa-me o José, o Pedro, a Maria, a Catila, a Filomena. Não me interessam gerações.

Interessa-me a justiça social no que toca à Sofia e ao Daniel. Interessa-me a política na medida em que abrange o Ricardo, a Maria de Lourdes, o Manuel, o Joaquim, a Jussara.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.

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