O Mar Vermelho já não é uma fronteira
No sábado, um ataque ao aeroporto King Khalid, em Riade, fez pelo menos doze mortos e mais de trezentos feridos e obrigou à suspensão das operações. Foi o ataque mais mortífero no reino desde 2015 e o mais grave de uma série de investidas houthis que, ao longo da última semana, levaram a guerra do Iémen ao coração da Arábia Saudita. Para a Arábia Saudita, que há muito que se apresenta como um porto seguro e um hub regional de investimento, estes ataques, mais do que danificarem infraestruturas, são uma afronta direta ao próprio modelo saudita. Mas é do outro lado do Iémen, no estreito que o separa do Corno de África, que esta guerra se mostra mais reveladora. Milhares de iemenitas em fuga da guerra já atravessaram o Bab al-Mandeb rumo ao Djibuti, a pouco mais de 20 km. Ao mesmo tempo, outros milhares de pessoas fazem o caminho inverso, em fuga dos conflitos que voltam a escalar no Corno de África. As duas costas tornaram-se, assim, palco de um estranho vaivém, em que quem foge de uma guerra se cruza, a meio caminho, com quem foge de outra.
E é este vaivém migratório que ilustra uma realidade geopolítica que ainda parece pouco apreciada: o Médio Oriente e o Corno de África não podem ser analisados como esferas separadas. Durante décadas, o Mar Vermelho foi visto quase como uma barreira natural, uma fronteira marítima que separava duas arenas de segurança distintas. À medida que as tensões escalam de costa a costa, esta via marítima revela-se uma ponte que une os destinos de ambas as regiões. As rivalidades do Golfo redesenham o Corno de África, e as do Corno de África fazem ricochete sobre o Golfo, criando assim um espaço estratégico cada vez mais contínuo e interligado entre as duas regiões.
A divisão entre a África Oriental e a Ásia Ocidental é em grande medida um fenómeno a-histórico. Durante milénios, as duas regiões gozaram de uma profunda integração, tanto cultural como comercial. Um dos melhores exemplos desta velha integração histórica é o café, que terá tido origem nas plantas nativas da Etiópia e da região mais alargada do Corno. Mas é apenas após mercadores terem levado a planta para a Península Arábica, e para o Iémen em particular, que o café começa a ser consumido como bebida, inclusivamente, por monges sufis por toda a Arábia como auxílio para manter a oração noturna, e até como intoxicante espiritual nas práticas místicas.
Grandes impérios como o de Axum e o Otomano estenderam-se pelo Corno de África e pelo Médio Oriente, facilitando o comércio e as trocas culturais entre os seus povos. O cristianismo foi oficialmente adotado como religião de Estado no século IV pelo rei Ezana (um dos primeiros a fazê-lo). De forma semelhante, o Reino de Axum acolheu a primeira migração (Hijra) de muçulmanos para fora da Península Arábica, após a perseguição aos seguidores do profeta Maomé em Meca. As ligações são demasiado vastas para tentar aqui uma lista exaustiva, mas esta interligação entre as regiões é relativamente evidente.
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