Toalhas na areia, drones no céu: o verão possível de Odessa
Entre diretos e gravações em vários pontos da cidade, quisemos passar pela praia para mostrar o contraste de fazer férias num país em guerra, mas não esperávamos assistir ao que nos esperava.
Chegámos depois de almoço a uma das praias conhecidas de Odessa. Fica muito perto de um luxuoso resort que podia estar em Vilamoura e de uma arena de espetáculos de golfinhos que poderia ser o Zoomarine. A praia poderia perfeitamente ser uma das mais concorridas de Albufeira: está apinhada de gente e mal se vê a areia. Poderia, mas não é, e há uma grande diferença. Estamos num país em guerra, por muito que, naquele momento, isso pareça uma abstração.
Odessa foi historicamente uma cidade de grande turismo internacional e continua a ter uma relação muito forte com o mar e com o verão. Hoje, acolhe sobretudo ucranianos que procuram o lazer possível durante algumas semanas. Fazer férias fora do país não é uma opção ao alcance de muitos homens em idade militar e, para muitas famílias, tendo em conta o tempo que se perde a viajar de comboio ou autocarro só para sair da Ucrânia, ficar no país acaba também por ser uma escolha mais simples.
Muitas destas pessoas costumavam ir para a Crimeia no verão ou para outras zonas do sul fazer férias. Depois da invasão russa, em duas fases, Odessa tornou-se um dos poucos destinos possíveis para quem quer continuar a ter alguns dias de praia. Daí as ruas continuarem bem compostas, os restaurantes terem grande lotação e as praias estarem cheias de pessoas a descansar nas toalhas. Há também uma necessidade de quem vive sob tanto stress encontrar uma possibilidade de fazer férias, mesmo sabendo que nada será como antes.
Aqui não há vendedores de bolas de Berlim, mas de maçaroca e de peixe do Mar Negro, a percorrer o areal. No meio dos gritos poéticos de um vendedor de fruta, que vende o seu peixe destacando os benefícios das suas vitaminas, e do som da música do bar da praia, começa-se a ouvir o alerta aéreo.
Quase ninguém reage, até porque já são muitos os alertas. Dias antes, contei pelo menos dez, muitos deles curtos. Este ano já terão sido mais de 900. Há uma espécie de habituação ao som. Não significa necessariamente ausência de medo, mas uma adaptação a uma realidade em que um alerta pode terminar sem nada acontecer ou ser o princípio de um ataque.
Mas, se está a imaginar militares como nos filmes e um suspense no ar como se estivéssemos numa praia da Normandia, desengane-se. São três ou quatro tipos, cigarro na boca e rádio na mão, à espera de subir para a parte de trás de uma carrinha e começar a disparar. Tudo aquilo oscila entre a prontidão operacional de quem tem de atuar rapidamente e o tédio de quem sabe que este é, de certa forma, mais um dia de trabalho.
As explosões começam a intensificar-se e os disparos também. Sente-se que está tudo mais próximo. As pessoas dividem-se entre as que saem apressadamente da praia, as que se levantam, olham para o horizonte e comentam, e as que continuam a sua vida como se nada fosse, deitadas na toalha.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.