Pesquisa mostra como médicos ajudaram a sustentar negacionismo da Covid-19
A pandemia de Covid-19 no Brasil revelou que o negacionismo científico não se restringiu a um conjunto de dúvidas ou informações equivocadas, mas esteve inserido em uma estratégia política articulada.
Uma pesquisa dedicada a esse cenário analisou como a autoridade médica e a noção de autonomia profissional foram mobilizadas para sustentar a prescrição de tratamentos sem eficácia comprovada, como a hidroxicloroquina.
Durante a crise sanitária, o governo federal, de Jair Bolsonaro, desencorajou medidas como o isolamento e o uso de máscaras, questionou as vacinas e promoveu o chamado “kit Covid”.
Nesse contexto, a hidroxicloroquina ultrapassou os limites do laboratório e ganhou uma “vida social e política”, transformando-se também em um artefato ideológico.
Enquanto cientistas que apontavam a falta de evidências sobre a eficácia do medicamento sofriam ataques e ameaças, a produção do fármaco era incentivada por laboratórios oficiais e por empresários alinhados ao governo.
Com o agravamento da pandemia e o aumento do número de mortes, a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia foi instaurada no Senado para apurar responsabilidades e investigar, entre outros aspectos, a atuação do chamado “gabinete paralelo”.
A pesquisa analisou os depoimentos e as manifestações públicas de quatro médicos com forte presença no debate político durante a pandemia: Mayra Pinheiro, Nise Yamaguchi, Francisco Cardoso e Ricardo Ariel Zimerman.
A partir dessa análise, o estudo discute a atuação dos chamados “negacionistas profissionais”, conceito utilizado na literatura para caracterizar especialistas que, mesmo diante de consensos científicos estabelecidos, contribuem para produzir incertezas e difundir discursos pseudocientíficos associados a motivações políticas, ideológicas ou de prestígio.
Um dos principais argumentos utilizados para justificar a prescrição off-label desses medicamentos foi a defesa irrestrita da autonomia médica.
Historicamente, a autonomia constitui um valor importante da prática clínica, construída com base no conhecimento técnico e no compromisso ético de beneficiar o paciente.
Durante a pandemia, no entanto, esse conceito passou a ser associado, em determinados discursos políticos e médicos, às ideias de “liberdade individual” e liberdade de escolha.
Sob a alegação de que “a clínica é soberana”, decisões baseadas na convicção individual do profissional foram colocadas, em alguns casos, acima das evidências científicas disponíveis.
Essa ressignificação da autonomia médica trouxe consequências importantes para o debate sobre saúde pública.
A autonomia profissional não significa liberdade irrestrita para qualquer conduta terapêutica.
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