Grace Passô estreia na direção com 'Nosso Segredo', filme em cartaz nos cinemas
São Paulo Expoente do cinema e do teatro negro, a atriz Grace Passô estreia na direção de longas-metragens com "Nosso Segredo", drama fantástico que chegou aos cinemas do país na última quinta-feira, logo após ter sido premiado com três Kikitos no Festival de Gramado deste ano, incluindo o de melhor filme de ficção.
O título era o único dirigido por uma mulher listado na mostra competitiva principal da 54ª edição do festival, um dos principais eventos da cultura brasileira a agraciar filmes nacionais.
Feitos singulares como esse acompanham a trajetória de Passô, primeira dramaturga negra brasileira a vencer o prêmio Shell de teatro. Há um tempo a atriz se destaca nos palcos e também no cinema, em especial por suas colaborações com o diretor Andrés Novais Oliveira em "Temporada" (2018) e "O Dia que Te Conheci" (2023).
Nos últimos anos, Passô também estrelou o filme "O Filho de Mil Homens" ao lado de Rodrigo Santoro. O projeto da Netflix dirigido por Daniel Rezende adapta o livro homônimo de Valter Hugo Mãe, que aborda grupos marginalizados socialmente sob um olhar poético e existencial.
Mais recentemente, a atriz integrou o elenco da sexta temporada de "Sessão de Terapia", lançada há alguns meses no streaming Globoplay. Na série, ela interpreta Rosa, psicóloga responsável pela supervisão profissional do terapeuta Caio, vivido por Selton Mello.
No novo filme, assume um novo lugar, o da direção —e se saiu bem mais uma vez. Sessão aguardada no Festival de Gramado , " Nosso Segredo " colecionou elogios por não apelar para o didatismo autoexplicativo e pela crítica racial profunda, dimensionada por meio dos personagens, dos diálogos e da ambientação.
"As pessoas negras e suas narrativas foram, durante toda a história, contadas por pessoas que não são negras. Fomos objetos de estudo e de fetiche. E a necessidade de contar a sua própria história modifica estruturalmente o próprio cinema", afirma.
A trama adentra o lar de uma família negra composta por mãe, tia e quatro filhos. Cada um deles lida de maneira distinta com o luto pela morte do pai, um homem branco. Em paralelo, o andar de cima da casa esconde um grande segredo que apenas Tutu, o caçula, sabe qual é.
Conduzido por falas emblemáticas e silêncios expressivos, o roteiro do filme se baseia na peça "Amores Surdos", criada por Passô há duas décadas. O texto foi reescrito para adaptar a história da linguagem teatral para a cinematográfica e refinar debates raciais contemporâneos.
No set de filmagem, a mineira usou o realismo fantástico para traduzir a negritude em metáforas, como a TV que segue ligada mesmo desconectada da tomada ou as conversas que o pequeno Tutu tem com uma figura desconhecida por meio de um cano.
"O fantástico existe para assustar uma ideia, uma certeza de realidade das coisas. Quando algo surreal acontece, é de alguma forma para catapultar o espectador para outro lugar", diz Passô.
"Estamos nesse ponto: uma sociedade com mais repertório para conversar sobre as questões da história negra desse país e que já consegue, parte dela, reconhecer que o Brasil é formado fundamentalmente de pessoas negras. Ao mesmo tempo, também assume que muitas vezes é racista", diz.
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