Faça devagar que estou com pressa
A frase parece contraditória, mas resume um vício contemporâneo: tratamos a velocidade como prova de inteligência.
Queremos respostas instantâneas para dilemas amadurecidos por séculos.
A pressa promete poupar minutos; suas contas chegam depois, cobradas de quem raramente participou da escolha.
Na rotina, decidimos a hora de sair, o trajeto, a compra possível, a palavra que encerra uma discussão.
Repetidas no tempo, moldam hábitos, relações e confiança.
Decisões públicas alcançam quem não estava à mesa e, às vezes, quem ainda nem nasceu.
Governos definem a distribuição de recursos, a proteção de direitos, o uso de tecnologias, a resposta a guerras e a crise climática.
Aqui, decidir depressa sem examinar consequências significa impor riscos alheios em nome de uma urgência conveniente.
Um exemplo veio da ciência climática.
A Reuters informou em 9 de outubro que, após quase três anos de negociações, os países ainda não haviam acordado o calendário do próximo relatório do IPCC.
O impasse ameaça atrasar avaliações necessárias antes da avaliação do progresso do Acordo de Paris, em 2028.
O tempo da deliberação também pode virar custo público.
A urgência, contudo, existe.
Uma enchente exige resgate; uma epidemia requer resposta; a fome não espera.
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