“Sacrifício”, com Anya Taylor-Joy e Chris Evans, expõe tensões e hipocrisias diante de crise climática
Em cartaz nos cinemas, o longa-metragem Digger , do vencedor do Oscar Alejandro González Iñárritu, trouxe Tom Cruise no papel de um magnata do petróleo que se vê com uma crise ambiental em suas mãos de proporção catastrófica.
O impacto do homem e as ações de bilionários para salvar, ou não, o planeta diante de crises climáticas é tema também de Sacrifício , longa-metragem do francês Romain Gavras que chega às telonas nesta quinta-feira.
O bilionário da vez é Ben Bracken (Vincent Cassel), que reúne uma quantidade de pessoas ricas e influentes para um evento filantrópico em uma mina desativada localizada em uma ilha grega.
O empresário apresenta, como solução para a crise climática, a exploração dos oceanos para gerar energia limpa, para uma plateia que inclui Mike Tyler (Chris Evans), um ator em crise com a insignificância de seu trabalho como astro de blockbusters de ação.
Ao contrário de Digger , que colocava um homem responsável pela catástrofe tentando controlar os danos à sua imagem, Sacrifício retrata Ben Bracken de maneira mais sutil, mas com uma ironia não menos mordaz.
Toda a elite artística e financeira mundial é satirizada nesse jantar, mas, em especial, a obsessão de mostrar para as câmeras e para as redes de que não são insignificantes: e nisso o personagem de Evans é perfeito para, ao mesmo tempo em que o público engaja com sua inocência e sua atitude errática, mas por vezes bem intencionada, também ri de suas hipocrisias e escolhas.
Entretanto, Sacrifício não se resume a um jantar com uma burguesia hipócrita – não estamos falando aqui do clássico O Anjo Exterminador , do surrealista Luis Buñuel -, e nem se perde no pretensiosismo de Digger (que força uma metalinguagem desnecessária), pois, aqui, o evento de gala é implodido por Joan (Anya Taylor-Joy), trazendo mais ação e violência para a mesa.
A personagem da atriz de A Bruxa é uma líder de uma seita pagã de amor à natureza, ou melhor, de idolatria a um vulcão que está prestes a entrar em erupção, no melhor estilo de O Homem de Palha .
Para supostamente salvar o mundo, Joan coleta três sacrifícios para empurrar ao fundo do vulcão, cumprindo a profecia que ela mesma criou.
As tensões entre política e aparências, amor e morte, fala e hipocrisia, redes sociais e realidade, preenchem o roteiro de ironias e críticas atuais e contundentes.
O público consegue facilmente engajar tanto com os supostos revolucionários e sua teoria de sacrifício delirante quanto com as suas vítimas, aqueles personagens que, em menor ou maior grau, desprezamos.
É um terreno moral com maniqueísmos borrados, o que torna Sacrifício um filme deliciosamente irônico de assistir.
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