Caminhada reúne seguidores de Luiz Gama em lugares históricos do centro de São Paulo
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"Por volta das três horas e meia do dia 24 entrou-me pela casa um amigo:
Assim começa a crônica do escritor Raul Pompeia (1863-1895), publicada na Gazeta de Notícias, sobre o cortejo fúnebre em homenagem ao advogado e jornalista negro Luiz Gama , maior nome do abolicionismo brasileiro, morto provavelmente de complicações de uma diabetes em 24 de agosto de 1882.
Luiz Gama foi um homem que se libertou da escravidão e se tornou escrivão de polícia, jornalista, dono de jornal, poeta, abolicionista e advogado autodidata que, usando apenas os artifícios da lei, libertou pelo menos 500 pessoas da escravidão no século 19 . Morreu seis anos antes da Lei Áurea e não viu o fim do regime no Brasil, causa pela qual lutou por décadas.
Seu cortejo fúnebre, que saiu do Brás, onde ele morava, e foi até o cemitério da Consolação, ficou marcado na memória e na imprensa de São Paulo , reunindo três mil pessoas —ou 10% da população da capital na época.
No domingo (30), ou seja, 144 anos depois, um grupo de 50 pessoas refez o trajeto do funeral, passando por pontos marcantes na trajetória de Gama e da cidade, como a praça da Sé, o Fórum João Mendes e, no final, seu o pequeno túmulo no cemitério da Consolação.
"A cidade estava triste", narrou Pompeia, em sua crônica. "Inúmeras lojas tinham as portas fechadas, em manifestação de pesar; as bandeiras das sociedades musicais e beneficentes da capital pendiam a meio mastro. Apinhava-se povo nos lugares por onde devia passar o enterro. As janelas acotovelavam-se as famílias. Em alguns pontos viam-se pessoas chorando. Ia sepultar-se o amigo de todos."
Para Abílio Ferreira, 66, coordenador da Sociedade Luiz Gama, associação dedicada à memória do abolicionista, a caminhada do último domingo serviu para se "ter uma ideia do peso e da comoção daquele momento".
O cortejo em homenagem a Gama se tornou um evento anual em 2013, sempre na semana de agosto em que o abolicionista morreu. "Na crônica, Raul Pompeia narra que os figurões ricos de São Paulo queriam pagar carruagens para a população se dirigir ao cemitério, mas a família de Gama recusou e todo mundo foi a pé", conta Ferreira.
Em frente ao Fórum João Mendes, atrás da catedral da Sé, o historiador Bruno Rodrigues de Lima, 37, explicou aos participantes a rivalidade entre o abolicionista e o juiz que dá nome ao tribunal.
"João Mendes foi um dos maiores inimigos do Luiz Gama. Odiava Luiz Gama. Só que não podia negar uma verdade comum à sociedade paulistana: que o Luiz Gama era sinônimo de excelência e o maior advogado dessa cidade, desse país, e, não é exagero dizer, o maior advogado do mundo", disse.
Bruno Lima é doutor em História do Direito pela Universidade de Frankfurt, na Alemanha, e pesquisador do Instituto Max Planck.
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