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Política

Quem dará a última palavra sobre a história que acreditamos ter vivido?

Revista Fórum ·
Quem dará a última palavra sobre a história que acreditamos ter vivido?

Durante boa parte da vida, atribuímos à memória um território quase inteiramente nosso.

Ela guardava um rosto sem registrar o endereço, devolvia uma voz décadas depois, aproximava acontecimentos distantes, apagava detalhes considerados importantes e preservava minúcias que pareciam insignificantes.

Um cheiro podia reconstruir uma casa, uma música fazia reaparecer uma tarde, uma fotografia encontrada por acaso interrompia o presente e reorganizava o passado.

Essa liberdade imperfeita começa a conviver com outra lógica.

Aplicativos examinam milhares de imagens, reconhecem pessoas, identificam viagens, agrupam cenas, produzem retrospectivas e reapresentam episódios segundo critérios definidos por sistemas que jamais conheceram a vida contida naqueles arquivos.

Em janeiro de 2025, a Oxford University Press publicou um estudo com título revelador: “Quando as memórias se transformam em dados”.

O pesquisador Rik Smit analisou como plataformas digitais participam do armazenamento, da seleção, da recuperação e da apresentação de recordações autobiográficas, inserindo a memória pessoal numa infraestrutura industrial que opera em escala planetária.

A Apple permite que sistemas de inteligência artificial escolham fotografias e vídeos, organizem uma sequência e acrescentem música para produzir pequenos filmes de memória.

O Google Fotos percorre caminho semelhante ao reunir rostos, lugares e acontecimentos e devolver ao usuário episódios que o sistema considera relevantes.

São recursos úteis e por vezes belos, mas inauguram uma mudança que merece atenção jornalística: empresas passaram a participar, de maneira cotidiana, da escolha daquilo que retorna ao primeiro plano de nossa biografia.

O passado toma a iniciativa O álbum familiar possuía outra temporalidade.

Permanecia fechado durante meses ou anos até que alguém decidisse abri-lo.

Uma fotografia podia atravessar vinte anos dentro de uma gaveta antes de regressar à vida de quem a guardou.

Havia nisso uma espécie de intervalo necessário entre experiência e recordação, um tempo durante o qual a memória fazia seu próprio trabalho, alterando proporções, reorganizando afetos e aproximando fatos por caminhos que nenhum índice poderia antecipar.

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