Novo laboratório de CAR-T da Fiocruz pode descentralizar produção, mas é visto com cautela por especialistas
O Ministério da Saúde anunciou, no fim de setembro, uma parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para a construção do segundo centro de desenvolvimento de células CAR-T da instituição, destinado à pesquisa e à produção de tratamentos para cânceres hematológicos.
A iniciativa, que também conta com a parceria da Secretaria de Saúde do Ceará (SES-CE), da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (HU Brasil) e da Universidade Federal do Ceará (UFC), se une ao primeiro centro anunciado em maio e instalado no Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), no Rio de Janeiro.
De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de R$ 330 milhões serão investidos pelo governo federal no desenvolvimento e na produção de CAR-T por meio da Fiocruz.
“A previsão é de participação de 25 pacientes nos estudos clínicos de fases I e II, com recrutamento previsto para o primeiro trimestre de 2027.
Esse quantitativo corresponde à capacidade inicialmente planejada para os estudos clínicos, e não representa uma estimativa da futura capacidade anual de atendimento do laboratório, que ainda não está estabelecida”, afirma Igor Bueno, diretor do Departamento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde do Ministério da Saúde.
Especialistas ouvidos por Futuro da Saúde apontam que, mesmo sem ter iniciado o estudo, a pasta tem investido na infraestrutura para um modelo descentralizado.
No entanto, ainda há incertezas sobre o desenvolvimento da pesquisa e da viabilidade comercial dos produtos que serão produzidos, tendo inclusive pesquisas mais adiantadas no país, como a da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto (USP-RP), em parceria com o Instituto Butantan.
Por outro lado, pesquisadores estimam que o Brasil vai necessitar, anualmente, de cerca de 1,8 mil a 2 mil tratamentos CAR-T para leucemia linfoblástica B e linfoma não Hodgkin de células B, focos principais dos desenvolvimentos hoje no Brasil, e mais mil para pacientes com mieloma múltiplo.
A capacidade do projeto da USP-RP e do Butantan deve ser de 300 tratamentos por ano.
Por isso, a avaliação é que é preciso desenvolver diferentes alternativas para dar conta da demanda nacional.
“Ainda não temos noção do potencial do tratamento da Fiocruz porque não temos dados clínicos.
Mas quanto mais locais houver no Brasil para produzir essas células, melhor.
Justamente porque só um local, como a parceria entre a USP e o Butantan, não vai ter condições.
Temos que encontrar outras iniciativas”, avalia Vanderson Rocha, coordenador do Comitê de Terapia Celular da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), professor e pesquisador no Hospital das Clínicas da USP.
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