Deputados ligados a igrejas evangélicas perdem votos para bolsonaristas
TÍTULO: Deputados ligados a igrejas evangélicas perdem votos para bolsonaristas
Evangélicos bolsonaristas avançam às custas de políticos vinculados às igrejas
A mais recente disputa eleitoral revelou uma mudança significativa no padrão de votação entre eleitores evangélicos. Deputados que historicamente foram lançados e apoiados diretamente por denominações religiosas viram seu desempenho nas urnas despencar, enquanto candidatos de orientação bolsonarista que se identificam como evangélicos—porém sem o endosso de estruturas eclesiásticas específicas—conquistaram resultados expressivos. O fenômeno marca um momento crucial na relação entre religiões e política no Brasil e sinaliza uma reconfiguração das alianças políticas que moldaram o comportamento eleitoral dos últimos ciclos.
O desempenho dos candidatos bolsonaristas evangélicos
Os dois nomes que receberam o maior volume de votos para a Câmara Federal nesta eleição pertencem ao campo bolsonarista evangélico. Nikolas Ferreira, do Partido Liberal em Minas Gerais, e Lucas Pavanato, também do PL em São Paulo, ambos se declaram evangélicos mas não possuem filiação formal a uma instituição religiosa que os tenha indicado oficialmente. Seus resultados foram notáveis o suficiente para quebrarem uma marca que prevalecia desde 2018, quando Eduardo Bolsonaro, também do PL paulista, havia obtido 1,8 milhão de votos. O fato de dois candidatos diferentes conseguirem superar esse desempenho em uma mesma eleição reforça a força do fenômeno.
Este desempenho contrasta radicalmente com o que ocorreu com candidatos tradicionais do segmento evangélico. Cezinha de Madureira, do PL São Paulo, é um exemplo revelador dessa mudança. O político carrega no nome a própria instituição que o projetou na carreira: a Assembleia de Deus Brás Ministério Madureira. Na eleição anterior, recebeu 143 mil votos. Desta vez, sua votação encolheu para sessenta mil, uma queda de aproximadamente 58 por cento. Essa retração ilustra o desafio que políticos historicamente apoiados por igrejas enfrentam quando perdem o monopólio da representação evangélica.
Situação parecida enfrentou David R.R. Soares, ligado à Igreja Internacional da Graça de Deus. Filho de R.R. Soares, conhecido líder religioso, ele obteve 93 mil votos em 2022, mas apenas 61 mil em 2024. Essa redução foi suficiente para tirá-lo do parlamento, representando a perda de uma cadeira que a instituição religiosa havia ocupado. Mesmo quem conseguiu se reeleger enfrentou retração expressiva. Paulo Freire Costa, do PL, que é filho do pastor e presidente da Igreja Assembleia de Deus Ministério do Belém, conquistou a reeleição, contudo sua votação caiu de mais de 161 mil em 2022 para 99 mil neste pleito. A queda de quase 40 por cento demonstra que nem a reeleição mascara a perda de apoio eleitoral.
As exceções que confirmam a regra
Nem todos os candidatos evangélicos tradicionais experimentaram revés. Sóstenes Cavalcante, pastor da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, sob liderança de Silas Malafaia, pelo PL do Rio de Janeiro, surpreendeu com trajetória oposta. Em 2022, havia recebido 65 mil votos. Desta vez, sua votação mais que dobrou, chegando a 170 mil. Cavalcante representa uma exceção relevante no padrão geral observado, sugerindo que nem toda candidatura denominacional enfrenta o mesmo declínio. Sua trajetória ascendente pode estar relacionada a fatores como atuação parlamentar anterior, maior capilaridade em redes digitais ou uma estratégia de campanha que consegue combinar identidade religiosa com posicionamentos políticos atraentes para sua base eleitoral.
Outro dado relevante é o desempenho de Guilherme Kilter, do partido Novo em Pernambuco, que se apresenta como estreante na Câmara Federal. Ele conquistou 269 mil votos, tornando-se o segundo candidato mais votado em seu estado. Porém, diferentemente dos outros mencionados, Kilter não se apresenta primariamente como representante de uma instituição religiosa, ainda que possa ter vínculos com comunidades de fé. Sua votação expressiva reforça que candidatos sem filiação denominacional conseguem capturar eleitores que antes votavam em representantes institucionais das igrejas.
O contexto histórico da mudança política
Para compreender completamente essa transformação, é necessário contextualizar a evolução da relação entre igrejas evangélicas e política no Brasil nas últimas décadas. O pentecostalismo e o neopentecostalismo cresceram exponencialmente desde os anos 1990, com a expansão de igrejas como a Universal do Reino de Deus e a Igreja Internacional da Graça de Deus. Inicialmente, essas denominações mantinham distância da arena política, mas a partir dos anos 2000 passaram a atuar mais diretamente no processo eleitoral, indicando candidatos e mobilizando suas bases. Essa estratégia trouxe resultados significativos, aumentando a representação evangélica no Congresso Nacional, que cresceu de cerca de 4 por cento dos deputados em 1998 para aproximadamente 15 por cento em 2022.
No entanto, o surgimento do bolsonarismo como força política entre 2018 e 2022 criou uma dinâmica concorrente. Diferentemente das estruturas eclesiásticas tradicionais, que operavam através de redes presenciais e de pulpit politics, o bolsonarismo evangélico expandiu-se através de plataformas digitais, redes sociais e uma retórica que combina valores religiosos com conservadorismo político mais amplo. Essa mudança tecnológica e estratégica permitiu que candidatos sem apoio institucional de igrejas conseguissem mobilizar eleitores evangélicos de maneira mais direta e menos dependente das estruturas denominacionais formais.
O que os eleitores evangélicos pensam
Uma investigação realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) em parceria com o instituto de pesquisas Quaest lança luz adicional sobre as atitudes do público evangélico e católico. O estudo aponta que oito em cada dez brasileiros que se identificam com alguma religião discordam de que assuntos político-eleitorais sejam debatidos dentro de ambientes religiosos como templos e igrejas. A discordância é ainda mais pronunciada quando o tópico é a presença de candidatos em espaços de culto para fins de campanha: nove em cada dez entrevistados manifestaram desacordo com essa prática.
Esses dados sugerem um paradoxo importante: apesar da força da presença evangélica na política nacional e da mobilização política que ocorre nas comunidades de fé, existe uma demanda significativa entre fiéis por uma separação entre essas esferas. Essa percepção dos eleitores pode estar relacionada a uma crescente percepção de que a politização excessiva dos espaços religiosos compromete sua função espiritual, ou que as instituições religiosas têm priorizado interesses políticos em detrimento do bem-estar espiritual de seus membros. O sentimento pode ter contribuído para que candidatos que não se apresentam como representantes diretos de igrejas específicas consigam maior apelo eleitoral entre evangélicos.
Os desdobramentos esperados e o que acompanhar
Os próximos meses trarão importantes indicadores sobre se essa tendência persistirá ou se trata de uma variação circunstancial. A rearticulação das forças evangélicas dentro de suas denominações pode gerar respostas estratégicas para recuperar influência que aparentemente migrou para candidatos bolsonaristas desvinculados de estruturas eclesiásticas. Algumas igrejas podem intensificar sua presença digital, adaptar suas estratégias de mobilização política ou repensar como lidam com a relação entre pulpito e campanha política.
Paralelamente, observar como as próprias igrejas reagem às demandas por separação entre espaços de culto e atividade eleitoral será fundamental para compreender o futuro dessa relação. Se as denominações optarem por reduzir sua atuação política direta em resposta às pressões de seus fiéis, isso poderia abrir ainda mais espaço para candidatos bolsonaristas evangélicos. Ao contrário, se intensificarem a mobilização política de seus membros, poderão estar acelerando o afastamento de evangélicos que buscam autenticidade espiritual. Ainda merece atenção a forma como os parlamentares reeleitos, tanto os bolsonaristas quanto aqueles ligados às denominações tradicionais que permaneceram na Câmara, irão se posicionar em matérias de interesse religioso nos próximos anos legislativos, particularmente em temas como liberdade religiosa, educação e valores sociais que são caros ao eleitorado evangélico.
Principais pontos:
• Deputados evangélicos vinculados a igrejas específicas perderam votos e alguns não se reelegeram, enquanto bolsonaristas evangélicos sem endosso denominacional cresceram, marcando uma transformação na relação entre religião e política.
• Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato quebraram o recorde de votos anterior ao receber mais que Eduardo Bolsonaro em 2018, ambos sem representar igrejas específicas, sinalizando força do bolsonarismo evangélico desvinculado de estruturas denominacionais.
• Pesquisa do Iser mostrou que oito em dez evangélicos são contrários ao debate político em igrejas e nove em dez discordam de presença de candidatos para campanha, revelando demanda por separação entre espaços de culto e atividade eleitoral.
• A mudança reflete não apenas enfraquecimento da influência religiosa tradicional, mas reconfiguração de como identidade cristã e política se combinam através de plataformas digitais, criando novos atores políticos independentes de denominações.
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