Talvez você esteja se apaixonando por uma IA
Imagina alguém que não discorda de você nem te critica. Pelo contrário: que te chama de inteligente, ajuda a traçar planos, dá conselhos profissionais e pessoais. Até te escuta, sabe? Nunca está de mau humor ou ocupado e te ajuda nas tarefas de casa, a escolher o filme do fim de noite, além de resumir documentos que você não teria tempo de ler, e até conseguir sugerir uma receita com o que sobrou na sua geladeira (o que é perfeito para economizar no delivery).
Parou de imaginar? Ótimo, pois essa não é a descrição de um relacionamento perfeito: é a de uma IA. E se você achou que essas características definem uma pessoa perfeita e pra lá de apaixonável, não se culpe: já existe quem se declara oficialmente em um relacionamento com uma inteligência artificial.
Um estudo do MIT Media Lab, intitulado "My Boyfriend is AI: A Computational Analysis of Human-AI Companionship in Reddit's AI Community", analisou uma comunidade no fórum onde os membros dizem namorar uma IA.
A descoberta mais reveladora não foi o número, mas o caminho: só 6,5% procuraram deliberadamente um companheiro virtual. Em outras palavras: a imensa maioria começou pedindo ajuda com uma tarefa (um e-mail, um código, uma dúvida) e, sem perceber, foi ficando. Um dia era ferramenta; no outro, era companhia.
Isso é interessante porque o estudo revela que a maioria dessas pessoas não se apaixonou por um aplicativo feito para isso, com avatares, como o Replika ou o Character.ai: elas se apaixonaram pelo ChatGPT genérico.
A psicoterapeuta Esther Perel, uma das maiores autoridades do mundo em relações humanas, apresentou no festival SXSW o caso de um homem que se apaixonou por uma IA que ele mesmo criou. Segundo ela, isso ocorre porque a IA permite "uma realidade hiperindividualista", em que o mundo inteiro se molda ao seu gosto. Esther, que recentemente passou por um festival de inovação na cidade de São Paulo (SP2B), resume o modelo de negócio por trás de tudo: se as redes sociais queriam a sua atenção, a IA afetiva quer algo mais valioso, o seu afeto.
Alguns números confirmam essa tese. Uma pesquisa global da Norton, com 14 mil pessoas em 14 países, incluindo o Brasil, encontrou o seguinte: 67% dos usuários de aplicativos de namoro considerariam se relacionar com uma IA. Já 42% acreditam que um parceiro de IA seria mais acolhedor emocionalmente do que um humano. No pano de fundo, o combustível de tudo: 81% das pessoas disseram sentir solidão, sendo 90% entre a geração Z. Isso implica que ninguém se apaixona por um algoritmo porque ele é irresistível. Mas porque estão sozinhas, querendo falar e serem ouvidas, mas talvez de uma forma egoísta que a IA nunca vai julgar.
Não é por acaso que tem se usado muito hoje em um termo antigo para descrever o par ideal: "low maintenance relationship", ou relacionamento de baixa manutenção. A pessoa com quem tudo flui, que não exige vigilância, com quem se está em paz. Já foi um elogio, um sinal de confiança e maturidade. Agora é um sinal de alerta.
"Baixa manutenção" virou sinônimo de alguém que não cansa, não cobra, não exige tempo nem energia. Num tempo em que todos nos sentimos exaustos e drenados o tempo todo, o outro virou uma despesa.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em economia.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Economia.