O jornalista e o que ele deve fazer diante de um mentiroso compulsivo
Perdão pela frase redundante, mas ela foi dita por Flávio Bolsonaro em entrevista ao Jornal Nacional (JN) na última sexta-feira: “Eu fui bem claro ao dizer que jamais questionei a questão do processo eleitoral”.
Insatisfeitos com a resposta, Cesar Tralli e Renata Vasconcellos, os âncoras do programa, insistiram no assunto.
Flávio não recuou do que disse, nem quando confrontado com a lembrança de declarações recentes feitas por ele.
Recapitulando: em 2014, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, ele afirmou na tribuna da Assembleia Legislativa que havia desconfiança na população em relação à urna eletrônica, já que ela não podia ser auditada — o que não é verdade.
“O que nos une é a desconfiança da urna eletrônica, um programa feito por uma empresa venezuelana, a Smartmatic, que é impossível de ser auditada porque não tem o voto impresso”, disse ele.
No seu perfil no X, em 11 de setembro de 2018, Flávio voltou a dizer que “é impossível garantir a lisura das urnas sem o voto impresso”, acrescentando: “Na minha avaliação, alguns institutos de pesquisas podem ser usados, exatamente, para dar um ar de legitimidade ao candidato da urna eletrônica, e não o do eleitor, vencer as eleições”.
Em agosto de 2021, no Senado, lamentou a rejeição da proposta de restabelecimento do voto impresso: “Teremos eleições sob suspeita”.
Logo após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2022, Flávio deu uma entrevista ao jornal O Globo em que afirmou que não houve fraude nas urnas, “mas podia ter acontecido”.
Fez menção a um relatório das Forças Armadas sobre a fiscalização do sistema eletrônico de votação.
O documento, contudo, encomendado por seu pai, não detectou qualquer falha concreta de segurança que pudesse levar à adulteração de votos.
Finalmente, em julho último, durante o evento “Debatendo o Brasil”, realizado em Brasília com representantes de mais de 40 países, Flávio afirmou falsamente que as urnas eletrônicas brasileiras teriam sido fabricadas pela Smartmatic — empresa que ele associou a suspeitas de fraudes eleitorais na Venezuela utilizando relatórios da CIA, agência de espionagem dos Estados Unidos.
Na entrevista ao JN, ele admitiu ter se equivocado ao citar a Smartmatic.
É fato, pois, que Flávio mentiu ao JN ao garantir que jamais questionou “a questão do processo eleitoral”.
Mas não foi a única vez que mentiu ao longo da entrevista de 40 minutos.
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