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A procissão ao mar dos pescadores de Viana nasceu contra o calendário do Estado Novo

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A procissão ao mar dos pescadores de Viana nasceu contra o calendário do Estado Novo

As colheres e as espátulas preenchem os moldes de madeira espalhados pela rua de sal grosso, tingido de todas as cores do arco-íris. Muita gente está de joelhos no empedrado. Batem o sal contra a pedra ao ritmo das castanholas da tocata. Esta reza só acontece uma vez ao ano, das dez da noite até ser dia.

Crianças e adultos, voluntários. Muitos são da Ribeira, outros tiveram lá um avô. Outros juntaram-se à festa oriundos de outras partes da cidade e até das freguesias de montanha. Há um ou outro forasteiro a tomar-lhe o gosto, nem que seja para a fotografia no telemóvel, a praga do nosso tempo.

Na noite de 19 de agosto e no dia 20 o Bairro da Ribeira toma o lugar da Praça da República. É ele o centro da cidade e o coração das festas de Viana do Castelo. Os tapetes de sal são uma grande atração da Romaria d’Agonia. Foram inventados para receber a procissão, no regresso do mar. Antes disso, maravilham a multidão. Os padrões de sal colorido combinam cruzes e âncoras, redes e peixes. O rosto e o nome da padroeira. Tudo com minúcia, mas em grande. Numa só rua chegam a espalhar-se mais de vinte desenhos e oito toneladas de sal.

Ao lado, no cais, os pescadores tratam de engalanar os barcos, pintados de fresco há poucos dias, para receber os andores. Enfeitam-nos com flores, bandeiras e alfaias da faina. Mais de uma centena de embarcações acompanha a procissão. É feriado municipal e dia da Santa.

A Procissão ao Mar , o número mais fotografado da romaria, é dos mais recentes. Só existe desde 1968. Nesse ano, a organização da festa quis mudar a procissão solene para a sexta-feira, 23, com o argumento de que atrairia maior número de devotos colada ao fim de semana.

Os homens da Ribeira levantaram um pé de vento. A procissão da Senhora D’Agonia sempre tinha saído à rua no dia da Santa, parecia-lhes um sacrilégio adiá-la três dias. E assim nasceu, no dia 20, uma segunda procissão, a primeira ao mar e ao rio, com o andor da Senhora d’Agonia embarcado no cais. Quase sessenta anos depois, resistem ambas no programa.

Contra a comissão de festas ungida pela autoridade do Estado Novo, como todos os poderes naquela época, os pescadores encontraram apoio no arcipreste de Viana. Monsenhor Daniel Machado acumulava a autoridade eclesiástica com a proximidade aos pescadores: era o pároco de Monserrate, a freguesia da ribeira. Batizou, casou e enterrou muitos homens e mulheres do mar. Fundou uma escola primária no Convento de São Domingos, onde os filhos da ribeira tinham acesso à melhor educação sem pagar nada.

Uma das ruas dos tapetes de sal tem o nome dele, outra a de Frei Bartolomeu dos Mártes. Cada um no seu século, conquistaram o direito à eternidade enquanto houver barcos de pesca na barra de Viana.

A Procissão ao Mar é sempre dia 20. Passou de teimosia de bairro a imagem de cartaz. É a bússola das festas: as outras datas é que podem todas variar.

Ao fim da tarde, os andores passam por cima dos tapetes e o sal desmancha-se sob os pés de quem vai na procissão. Uma noite inteira de joelhos para uma tarde de procissão? Às vezes, quem chega de fora pergunta se vale a pena. Quem é de lá, não percebe a pergunta.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.

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