De Maio de 68 às greves estudantis
Que se passa na cabeça dos jovens que participam nos bloqueios das escolas em França (e na Bélgica)? Qual é o projecto? Qual é o objectivo final? Será que pensaram nisso? Creio que não. De facto, há, com razão, alguns estudantes que se podem queixar do estado das suas escolas. No entanto, a maioria das escolas em França dispõe de condições superiores às da maioria dos países da OCDE . E o facto é que, sempre que os jornalistas tentam obter respostas sobre as reivindicações, uma parte importante não sabe sequer mencionar uma única reivindicação. Outros limitam-se a repetir o que os velhos militantes de extrema-esquerda lhes sopraram ao ouvido: mais professores; comida mais saborosa nas cantinas; melhores condições (quais?). Outros afirmam, sem rodeios, querer “partir tudo”. Em Paris, um aluno responde ao jornalista que os alunos têm demasiadas horas de aulas e que os professores lhes retiram os telemóveis, concluindo com um “ c’est dégueulasse ”. Entre uma juventude sem capacidade para pensar por si própria, outra que apenas quer divertir-se e outra que só quer destruir pelo prazer niilista da destruição — quem não sabe criar prefere destruir —, o futuro não se afigura particularmente brilhante. E, de facto, quando lemos os resumos dos acontecimentos das últimas semanas, o cenário é claro: várias dezenas de escolas foram vandalizadas e/ou incendiadas; viaturas das forças de segurança e dos bombeiros foram danificadas; mobiliário urbano foi destruído; mais de 140 funcionários das escolas foram agredidos ou ficaram feridos; 200 alunos feridos; uma professora e um director foram atingidos a tiro em Aubagne por um aluno de 14 anos; e, segundo os números disponíveis na segunda-feira, dia 13 de outubro de 2026 (à data da redacção deste artigo), quase 900 polícias ficaram feridos durante os eventos .
No meu último texto sobre as greves estudantis , citei o conhecido intelectual francês Louis Pauwels. O texto é tão actual que parece ter sido escrito ontem (foi, na verdade, publicado em 1986). Nele, Pauwels afirma que os jovens faziam greve não para obter acesso a um ensino melhor, mas sim para contestar qualquer tentativa da sociedade de lhes impor o mérito, a disciplina, o trabalho, o esforço pessoal, o amor à pátria e a responsabilização. Por outras palavras, os jovens não faziam greve para exigir um ensino de qualidade que lhes proporcionasse boas carreiras. Não: faziam greve para que o ensino se tornasse o mais fácil possível, podendo assim usufruir dos prazeres da vida. Pauwels terminava o texto de forma lapidar: (…) Eis todo o seu sentimento revolucionário. É uma juventude atingida por uma espécie de SIDA mental. Perdeu as suas imunidades naturais; todos os vírus da decomposição a atingem. Perguntamo-nos o que se passa dentro das suas cabeças. Nada. Mas esse nada devora-os. (…) (Louis PAUWELS, Le Monome des Zombies, Éditorial do Figaro Magazine sobre a greve estudantil de 1986).
Certos jornalistas começam a comparar esta greve com as greves de Maio de 68. Uma comparação interessante. Karl Marx dizia que a História se repetia sempre duas vezes: “a primeira como tragédia, a segunda como farsa”.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.