A Geopolítica da Coragem
Há povos que mostram a sua força nas paradas militares, outros na arquitetura militar, outros nos arsenais. Portugal, país antigo e desconfiado das grandes palavras, encontrou ainda outra forma de dizer ao mundo quem é: oito jovens, vestidos com jaquetas bordadas e meias brancas, avançando de peito aberto contra um animal de seiscentos quilos.
Não é uma tese de gabinete. É uma intuição. Um povo que inventa os forcados, e que os conserva como uma das suas expressões mais singulares, está a comunicar algo que os mapas não registam. Está a dizer que, aqui, a coragem não é apenas uma virtude privada, mas uma forma de linguagem coletiva. Que a juventude, quando chamada, sabe colocar-se diante da força bruta sem fugir. Que a diferença de peso, de tamanho, de ímpeto e de violência não decide tudo.
O forcado não vence o toiro por ser mais forte. Vence porque acredita numa ordem superior à força: a firmeza, a técnica, a confiança nos companheiros, a entrega. O primeiro homem avança sabendo que o choque virá por inteiro. Atrás dele há uma linha de amigos, não espectadores. A pega é uma metáfora perfeita de um pequeno país diante de inimigos maiores: ninguém se salva sozinho, ninguém se gaba sozinho, ninguém cai sozinho. Quando um vai à cara do toiro, os outros vão com ele, ainda que dois passos atrás.
Visto com atenção, um grupo de forcados tem qualquer coisa de marcial. Há uma frente, uma retaguarda, uma disciplina, uma confiança absoluta no homem ao lado, como num pelotão de infantaria. Cada um sabe que o seu corpo protege o corpo do outro. Cada um aceita que a coragem individual só ganha sentido dentro da coesão do grupo. O Cabo avança, cita o toiro em público e chama sobre si o primeiro embate. É, nesse instante, a figura do comandante que vai à frente dos seus homens: não manda de longe, não se resguarda, não delega o perigo. Expõe-se primeiro para que os outros possam cumprir depois. E eles seguem-no porque a autoridade, ali, não vem da voz, mas do exemplo.
Um Estado mais atento aos seus símbolos talvez percebesse que há aqui uma escola discreta de carácter nacional; e que o país tem para com os forcados uma dívida de dissuasão, por há quase dois séculos lembrarem, dentro e fora de portas, que ainda há jovens portugueses capazes de avançar contra uma força desproporcionadamente maior. Não recebem remuneração pela lide, e ainda bem que assim é: a gratuidade faz parte do gesto. Não se arrisca o destino por dinheiro; e talvez esteja aí uma diferença portuguesa dentro do espaço ibérico, onde a coragem taurina seguiu, historicamente, mais do que um caminho e mais do que uma economia. Vão porque querem, porque gostam, porque lhes arde no sangue essa mistura antiga de honra, amizade e necessidade de se provar diante do perigo; talvez porque saibam, mesmo sem o dizer, que a vida, se não conserva alguma aventura, deixa de valer verdadeiramente a pena ser vivida. Não se trataria de lhes tocar na liberdade nem na gratuidade, que são parte essencial da sua nobreza; mas de admitir que poderia haver, através de instituições militares, um gesto simbólico de reconhecimento oficial.
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