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A beatificação de Maricarmen e a questão do direito à habitação

CNN Portugal ·
A beatificação de Maricarmen e a questão do direito à habitação

Maricarmen era uma senhora que queria passar os últimos dias da sua vida com a dignidade que a respeitável idade lhe deveria conceder. Para seu mal, encontrou-se no inverno da vida com o ceifeiro da vida moderna: a submissão da democracia liberal à financeirocracia.

O ceifeiro, símbolo da morte no imaginário medieval europeu, abandonou as longas vestes pretas, trocando-as por um fato italiano à medida, um relógio com a melhor mecânica suíça e sapatos feitos à mão. O ceifeiro levou com ele a democracia liberal e a esperança de que geração após geração se viveria melhor. O ceifeiro otimizou a concentração de riqueza, juntou os techno boys e as grandes redes imobiliárias. O ceifeiro passou a viver melhor; o povo é que não.

Como o ceifeiro reage à onda mediática, permitiu que Maricarmen pudesse voltar a casa. Mas tarde demais. Maricarmen morreu no hospital, sem voltar a atravessar a porta da casa onde vivera durante sete décadas. A fragilidade da existência da pobre senhora tornou-a cordeiro sacrificial no altar dos tumultos de uma geração que exige melhores condições, um futuro melhor e o direito a ter a sua habitação sem ter de vender a alma ao patrão do ceifeiro para isso.

Maricarmen foi, então, beatificada pela esquerda que percebeu (muito tarde) que as lutas de identidade não podiam ser feitas desligadas das lutas materiais. Essa esquerda varre, agora, as ruas de Madrid a Paris. O ressentimento é legítimo: disseram-lhes que se estudassem teriam oportunidades reais de bem-estar e conforto. Foi-lhes prometido sucesso e leveza como os nómadas digitais e a possibilidade de viajarem como influenciadores.

Entretanto, a democracia florescente do pós-Guerra Fria deu lugar a uma crescente tecnocracia, à burocracia e à financeirocracia. Os valores democráticos, liberais e sociais foram submetidos à superior vontade dos mercados.

Com isso, a sua revolta é justificada: ninguém deve ter de sacrificar a sua existência para pagar uma renda, para ter um cabaz alimentar ou para poder ter filhos. Não se fomenta a primavera demográfica extraindo a alma aos jovens.

Inspirados em Mamdani e na sua affordability , e com fé em Maricarmen, uma parte dos jovens procura soluções socializantes, por vezes inspiradas no pós-marxismo, romanceando novamente utopias comunitárias que nem sempre provaram trazer maior bem-estar ou sequer a previsibilidade prometida.

Talvez por isso, olham para a habitação como um direito não-hipotético, mas concreto – a cada jovem um lar. Na verdade, a democracia de bem-estar do pós-guerra teve no acesso à habitação uma parte essencial. A América das décadas do pós-guerra foi desenhada em torno da habitação e do emprego estável como mecanismos emancipatórios que deram a uma parte significativa da classe média um horizonte depois do liceu e lhe permitiram criar uma família e enviar os filhos para as universidades. Essa previsibilidade ruiu para muitos, e com ela emergem soluções iliberais.

Mas a pergunta desconfortável é esta: o direito à habitação é um direito absoluto?

Não é.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.

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