Macbeth, monólogos e teatro no carro: o que ver este mês
Uma atriz de certa idade, sozinha numa casa grande demais, recebe um telefonema que pode devolvê-la ao palco: um realizador propõe-lhe um projeto chamado Medeia. Maiúscula , de Jacinto Lucas Pires, é um monólogo sobre o tempo, a memória, o trabalho e as muitas versões de uma mulher que já foi. Luísa Cruz dá corpo a Benedetta Croce, uma atriz que olha para o próprio passado com humor, ironia e alguma vertigem, enquanto o M de Medeia — a personagem de Eurípides, mas também o eco de uma outra idade do teatro — se instala na conversa.
Com encenação de Marcos Barbosa, Maiúscula promete um daqueles encontros em que a força do texto encontra uma intérprete à sua medida. Luísa Cruz, uma das atrizes mais reconhecidas da sua geração, conduz este frente a frente entre palco e vida, entre aquilo que fomos e aquilo que ainda podemos ser. “Não, não preciso que olhem para mim, sou uma Mulher Maiúscula”, afirma Benedetta. Mas o espetáculo parece fazer precisamente o contrário: pedir-nos que olhemos, durante o tempo necessário, para uma mulher que se recusa a desaparecer.
Em La Distance , o encenador e dramaturgo Tiago Rodrigues, diretor do Festival de Avignon, volta a projetar o presente num futuro inquietante. Em 2077, parte da humanidade vive em Marte, enquanto a Terra enfrenta condições cada vez mais difíceis. A peça acompanha as chamadas telefónicas entre um pai, ainda na Terra, e a filha, que partiu para Marte. Num palco giratório dividido entre os dois planetas, Adama Diop e Alison Dechamps nunca conseguem ver-se diretamente: a rotação da cena determina os momentos em que podem falar e cria uma distância literal entre os corpos.
Mais do que uma ficção científica sobre a colonização de Marte ou um alerta para a crise climática, a peça usa esse futuro para pensar as relações humanas no presente. A separação entre pai e filha pode ser também metáfora para o crescimento, a emancipação: partir, construir uma vida própria e aceitar a distância que acompanha esse movimento. Entre a ameaça de um futuro possível e a intimidade de uma relação familiar, Tiago Rodrigues constrói um espetáculo sobre aquilo que nos aproxima e sobre o que inevitavelmente nos separa — até ao momento final, em que pai e filha finalmente se podem olhar.
A temporada do Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, começa com o espetáculo Nacionalismo, de Odete (pseudónimo do artista multidisciplinar Levi Gabriel Carvalho). Em cena, dois intérpretes atravessam a história do conceito de “nação” em Portugal, de 1143 ao Estado Novo, interrogando ideias de pertença, identidade e exclusão. Entre o português, o inglês e o árabe, e colocando em tensão os passados árabe e judaico do país com o presente, o espetáculo revisita figuras e narrativas históricas esquecidas ou marginalizadas.
Nacionalismo propõe uma reflexão sobre a construção da identidade nacional e sobre as feridas da História que continuam a marcar o presente. Da colonização e da conquista à reparação, a peça explora a relação entre geografia e corpo, questionando as narrativas que prevalecem e os corpos que ficam de fora da ideia de Portugal.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.