Nova pesquisa mostra que mulheres começam a romper o tabu e falar sobre dores da maternidade
Ao longo dos tempos, nem sempre vigorou a ideia, tão aceita hoje, de que a maternidade seria uma vocação natural.
Era comum nos lares da aristocracia e da burguesia europeias, até o século XVIII, que bebês, entregues às amas de leite, ficassem afastados dos pais nos primeiros anos de vida.
Foi justo a essa altura da história que sacolejos econômicos e sociais, impulsionados pelo Iluminismo e por uma nova ótica médica, ajudaram a redefinir o papel de mãe.
A elas caberia a tarefa de cuidar dos filhos, algo que fariam por puro instinto.
E assim sedimentou-se a imagem da figura feminina abnegada e voltada à prole.
Verdade que, a partir da década de 1960, o movimento feminista ampliou os direitos delas e trouxe à cena a pílula anticoncepcional.
Mas, mesmo podendo decidir sobre pôr ou não herdeiros no mundo, as mulheres sempre estiveram, e ainda estão, diante da expectativa de abraçar o projeto da família completa, associado à noção de plenitude.
Essa visão romantizada da maternidade, que abranda e muitas vezes se desvia do peso que ainda recai sobre a ala feminina, faz das queixas com o exaustivo exercício de ser mãe um tabu.
Pois ele começa aos poucos a ser rompido, com elas cada vez mais dando voz às asperezas do ofício.
Uma recente pesquisa, conduzida por uma dupla de psicólogas da Universidade de Brasília (UnB), ouviu a fundo mulheres que, mesmo revelando um amor sem igual pela prole, se diziam descontentes, arrependidas de sua escolha, de tão duro o batente envolvido na função.
Intitulado Não Nasci para Ser Mãe , o estudo encontrou um fio que unia as histórias.
Todas elas, em certo ponto, entenderam ter idealizado a experiência e caído na real, o que embutiu renúncias pessoais e profissionais e uma sobrecarga ao encarar a frenética agenda da garotada.
A tímida participação dos pais e a frágil rede de apoio foram frequentemente citadas.
“Elas se veem sozinhas na criação dos filhos, cansadas e sem liberdade, mas têm muito medo de um julgamento moral por admitirem não gostar da maternidade”, analisa Daniele Fontoura, à frente da vasta investigação.
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