Protejam os bares! O plano do Reino Unido para a música
O bar como ponto de vista da rua e o debate sobre a cidade: quem ocupa, quem governa e quem é ouvido.
Li numa discussão sobre escolas militarizadas: “Isso aí é bom pro filho do pobre, o filho do rico vai estudar música na França.”
De outro debate, dessa vez em cima de uma crítica ao financiamento de filmes via Lei Rouanet: “Chega em casa e assiste ao Canal do Boi então.”
Duas colocações que parecem distantes, mas ao mesmo tempo há um elo que as une: a arte. Por que alguém em sã consciência deixaria de estudar música para estar em uma escola militar ou trocaria uma Fernanda Montenegro por um nelore? A resposta, pelo menos do lado científico, é que não deixaria.
Existem estudos que ligam nosso amor à arte à evolução da espécie humana. É aquela famosa frase de que, antes de a criança falar, ela canta; antes de andar, ela dança; e, antes de escrever, ela pinta. Denis Dutton é um expoente dessa linha e dá uma palestra linda, ilustrada por Andrew Park, sobre o que ele chama de Teoria Darwiniana da Beleza .
Temos o lado da genética, indicando que aquele dom musical é herdado, assim como o arrepio que a gente sente ouvindo aquela poesia que toca na alma. São os genes da criatividade aflorando na pele, literalmente. A neurociência nos diz que estar diante de algo artístico ativa os nossos circuitos de recompensa e prazer e que o julgamento do que é belo se sobrepõe ao que é moral, ou seja, a estética se formou no nosso cérebro antes das leis sociais.
Outros apontam a arte como uma seleção sexual, do tipo sinais de aptidão ou a cauda de um pavão, até chegar à coesão social, em que aquela arte se desenvolve de uma forma que vira identidade, o que está conectado a andar em bandos também.
Toda a tribo vestida de uma forma para celebrar a mudança das estações, a colheita, o ano-novo, o carnaval. Esse é o conceito do que é um evento: interesses comuns de algumas pessoas, celebrados em algum lugar, por algum motivo. Esse conjunto de tradições e hábitos que viram identidade coletiva é o que chamamos de cultura.
Apesar desse discurso belo e positivo, a cultura pode muito bem servir ao mal, como a Inquisição, a escravidão e o colonialismo já foram a identidade coletiva de um povo. O interessante é entender como a arte responde à cultura opressora.
O livro “Desobediência Civil”, de Henry David Thoreau, influenciou Martin Luther King na luta pelos direitos civis nos EUA. Dentro deste movimento, surge o Black Power como resposta crítica aos métodos pacifistas, exaltando o orgulho racial e a autonomia. Absorvendo o discurso da autodeterminação, resistência e denúncia social, o Hip-Hop vem ao mundo na década de 1970. Podemos dizer que o hip-hop é filho da desobediência civil? Não há dúvidas.
A repressão foi respondida com arte, que é a fonte da qual muitos outros movimentos beberam, da Tropicália ao Punk, do Samba ao Funk. Todos se espalharam porque a linguagem da criatividade e resistência é universal; ela brota onde a vida está, sem depender de empresa ou governo.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.brasildefato.com.br — o conteúdo pertence a Brasil de Fato.