A operação de 425 milhões que colocou Molina na mira da CVM
Durante alguns meses de 2018, uma rotina financeira que havia sido previsível por anos mudou de comportamento.
Contratos a termo envolvendo ações da Marfrig, normalmente carregados por quase trezentos dias, começaram a ser rolados em intervalos muito menores — em alguns casos, de apenas dezesseis dias.
O movimento coincidiu com um período em que a companhia corria o risco de perder espaço no Ibovespa.
Para a Comissão de Valores Mobiliários, não foi coincidência.
A área técnica da autarquia acusa Marcos Antonio Molina dos Santos, controlador da atual MBRF, Tang David e a MMS Participações de terem usado operações com ações da empresa para criar artificialmente oferta e demanda no mercado e elevar o índice de negociabilidade do papel.
A dimensão da acusação vai muito além de uma sequência incomum de negócios.
Segundo a CVM, foram movimentadas 79,5 milhões de ações em operações que somaram cerca de 425 milhões de reais.
Entre março e agosto daquele ano, o prazo médio das rolagens despencou de algo próximo a trezentos dias para cerca de quarenta.
Passado o período decisivo para a composição do índice, voltou praticamente ao padrão anterior.
É justamente essa mudança abrupta, combinada com gravações telefônicas obtidas durante a apuração, que sustenta a tese de que os negócios tinham um objetivo que extrapolava a simples gestão financeira da posição acionária.
As conversas são o trecho mais incômodo do processo.
Em uma delas, Tang discute com um operador o índice de negociabilidade da Marfrig, afirma que o indicador precisava superar determinado nível e relata ter falado com Molina sobre a necessidade de rolar 10 milhões de ações.
Em outro momento, explica que os negócios precisavam ser realizados com contraparte de fora da corretora para que fossem computados no indicador.
Ao justificar a antecipação de uma rolagem, acrescenta que seu objetivo não era taxa ou ajuste financeiro.
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