O combate à ‘ciência colonial’ no fundo do mar
Em entrevista à Agência FAPESP , Diva Amon, cientista de Trindade e Tobago que liderou a primeira expedição caribenha ao mar profundo, explica a urgência de manter espécimes e dados nos países de origem e fortalecer as parcerias Sul-Sul
Em entrevista à Agência FAPESP , Diva Amon, cientista de Trindade e Tobago que liderou a primeira expedição caribenha ao mar profundo, explica a urgência de manter espécimes e dados nos países de origem e fortalecer as parcerias Sul-Sul
André Julião | Agência FAPESP – Nascida em Trindade e Tobago, país insular no sul do Caribe, Diva Amon era estudante de biologia no Reino Unido quando percebeu um paradoxo em sua área. Embora qualquer ponto de sua terra natal esteja a poucos quilômetros do mar profundo – porção do oceano com mais de 200 metros de profundidade –, essa proximidade geográfica não garantia à população local acesso às descobertas científicas feitas naquelas águas.
Assim como ocorre em outras partes do mundo, quase todo o material biológico coletado no mar profundo de Trindade e Tobago está depositado em instituições do chamado Norte Global, conjunto de países desenvolvidos majoritariamente no hemisfério Norte. Isso significa que mesmo cientistas daquele país precisam ir até essas instituições nos Estados Unidos e na Europa para estudar sua própria fauna e flora marinhas. Esse padrão de produção de conhecimento tem sido chamado de “ciência colonial”.
Amon, que é pesquisadora da Universidade da Califórnia em Santa Barbara e diretora do SpeSeas , organização sem fins lucrativos sediada em seu país natal, foi a cientista-chefe da primeira expedição ao mar profundo de Trindade e Tobago liderada por caribenhos, ocorrida entre junho e julho de 2026.
Um levantamento apresentado por ela no evento de Itatiba mostra que, de todo o material biológico coletado nas águas profundas de Trindade e Tobago e Barbados, apenas 3% estavam em seu país, nada em Barbados, 10% em local desconhecido e 87% em instituições do Norte Global.
Na entrevista a seguir, ela fala sobre como tomou consciência da ciência colonial feita ainda hoje, como realizar parcerias equitativas com instituições do Norte Global e como países do Sul Global podem colaborar entre si para conhecer seus oceanos.
Agência FAPESP – Como se interessou por questões como ciência colonial e ciência de paraquedas? Diva Amon – Como pesquisadora, estudo o oceano profundo, tentando entender o que vive lá, mas também como estamos impactando o ambiente marinho. Nessa jornada de tentar responder a essas questões, ficou muito claro, bem rápido, como a ciência oceânica e a ciência em geral podem ser desiguais e quanto de ciência colonial ainda existe. Lembro quando ainda estava na graduação, por volta de 2008 ou 2009, e tive uma aula sobre um ecossistema chamado Prisma Acrescionário de Barbados [gigantesca estrutura geológica submarina localizada a leste do Mar do Caribe], onde os franceses haviam feito muitos trabalhos. Lembro de ter pensado, ‘isso deve ser nas águas de Barbados, o que é perto de nós’. Eu comecei a perceber que eu não sabia nada sobre o oceano próximo de mim, mesmo estudando ciência oceânica. Foi aí que as questões começaram.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em agencia.fapesp.br — o conteúdo pertence a Agência FAPESP.