Cortes em benefícios podem reduzir renda do interior, aponta estudo da USP
A estagnação ou a redução real de benefícios sociais e previdenciários pode provocar uma retração relevante na renda de municípios fora das capitais e das regiões metropolitanas, segundo uma nota de política econômica do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da FEA-USP.
O estudo analisou os efeitos de possíveis mudanças nas regras de reajuste de aposentadorias e pensões, do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e do Bolsa Família.
De acordo com os pesquisadores, essas transferências chegam a responder por quase metade da renda de famílias de baixa renda em parte dos municípios analisados.
Benefícios movimentam o comércio local A avaliação do Made é que os recursos pagos a aposentados e beneficiários de programas sociais são direcionados principalmente a despesas básicas, como alimentação, medicamentos e serviços.
Isso faz com que o dinheiro circule rapidamente no comércio das cidades menores.
“Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa”, afirmou a economista Luiza Nassif Pires, co-diretora do centro de pesquisa.
Em municípios fora das capitais e de suas regiões metropolitanas, as transferências públicas têm peso maior do que nos grandes centros.
No Ceará, por exemplo, o estudo aponta que benefícios sociais e previdenciários representam 22% da renda agregada da capital e da região metropolitana, proporção que chega a 40% nas cidades do interior.
Simulação projeta perda de até 10,8% na renda agregada A nota simulou cenários para o período entre 2027 e 2029.
Na hipótese de alterações nas regras de reajuste, a renda agregada dos municípios analisados ficaria entre 6,8% e 10,8% abaixo da trajetória de referência, baseada na manutenção do crescimento real dos benefícios.
Segundo o Made, cerca de um terço dessa perda seria indireta, decorrente da redução do consumo e da atividade econômica local.
Ou seja, o efeito alcançaria também famílias e empresas que não recebem diretamente aposentadorias, BPC ou Bolsa Família.
Os maiores impactos estimados estariam em cidades do interior do Norte e do Nordeste, regiões em que a renda das famílias depende proporcionalmente mais das transferências públicas.
Estudo relaciona cenários a debate eleitoral A pesquisa foi motivada pelo ajuste de cerca de R$ 250 bilhões — equivalente a aproximadamente 2% do PIB — discutido pela equipe econômica do candidato Flávio Bolsonaro (PL).
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